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Pelo terceiro dia Polícia Federal faz Operação no Garimpo da Terra Yanomami

A Polícia Federal iniciou a Operação Omama na terça-feira (29) e não tem prazo para concluir. Mais de 20 mil garimpeiros estão na Terra Indígena.

Por Marcelo Winter - Rondônia Já

quinta-feira, 01/07/2021 - 04:09 • Atualizado 16:48
Pelo terceiro dia Polícia Federal faz Operação no Garimpo da Terra Yanomami
Operação da PF na Terra Indígena Yanomami - Foto: Divulgação

A Polícia Federal, o Exército Brasileiro, a Força Aérea Brasileira (FAB), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Força Nacional realizam a Operação Omama (divindade Yanomami) para retirar garimpeiros da Terra Indígena Yanomami desde terça-feira (29).

Segundo o delegado José Roberto Peres, superintendente da PF em Roraima, não há data específica para a operação acabar. O alvo são os mais de 20 mil garimpeiros que fazem extração ilegal de ouro na reserva.

Somente neste ano, esta é a quinta operação no local. A PF, que coordena as ações, não divulgou em quais áreas do garimpo ilegal os agentes vão atuar . A Terra Indígena Yanomami, com quase 10 milhões de hectares, é a maior do país. Aproximadamente 27 mil indígenas vivem em mais de 370 aldeias.

Com o efetivo envolvido, aeronaves e equipamentos, a operação planeja incursões em diversos garimpos na Terra Yanomami, para fazer a apreensão e inutilização de maquinários, aeronaves, insumos e outros materiais utilizados na extração de ouro, com a finalidade de desestimular os garimpeiros de permanecerem na região.

Polícia Federal na TI Yanomami – Foto: Divulgação

Polícia Federal investiga presença do PCC

A Polícia Federal descarta que o garimpo ilegal esteja sob domínio de facções criminosas, admitindo porém que há a presença de faccionados garimpando o ouro, mas, as próprias investigações da PF mostram outra realidade.

Escutas telefônicas realizadas durante a operação Érebo da Polícia Federal, em 2018, flagraram diálogos de um integrante do PCC morador de Iracema, no interior de Roraima, em que ele tratava da expansão da facção para as áreas de garimpos, onde há presença maciça de ex-presidiários e foragidos da Justiça.

Ainda que investigadores não saibam com precisão o que os membros do PCC fazem na atividade garimpeira, se dão apenas proteção ou se atuam na extração ilegal do metal, especialistas não têm dúvidas de que a pouca regulamentação do mercado do ouro no país incentiva a lavagem de recursos, atraindo com isto, o crime organizado.

Aeronave na TI Yanomami – Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real

Quanto ganham pilotos e donos de aeronaves

Não são apenas os garimpeiros que faturam alto com o garimpo ilegal.  Pilotos e donos de helicópteros que fazem o transporte até a área também estão enriquecendo, chegando a faturar R$ 200 mil por semana, segundo a Polícia Federal. Segundo um dos inquéritos:

“Sabe-se que cada frete aéreo para o garimpo custa em média de 10 a 12 gramas de ouro (R$ 10 mil a 12 mil), assim somente em uma semana, a organização criminosa auferia lucro de cerca de R$ 200 mil”

São eles os responsáveis pela logística que sustenta a atividade garimpeira na Terra Indígena, onde as pequenas aeronaves são o principal meio de acesso, já que o território indígena é distante de estradas e cortado por rios pouco navegáveis.

Levantamento feito pelos sites investigativos Amazônia Real e Repórter Brasil com as 31 aeronaves que sobrevoaram áreas de garimpo na TIY na última década mostra que pelo menos dois pilotos suspeitos de darem apoio logístico ao garimpo já foram flagrados transportando cocaína, muitos anos antes do PCC ampliar e consolidar a sua presença em Roraima.

Recentemente, uma destas aeronaves caiu numa das áreas de garimpo. Veja o vídeo abaixo:

 

Histórico

A etnia Yanomami é alvo de garimpeiros desde a década de 70, na época da ditadura militar. Foram, na realidade, os militares que fizeram o mapeamento mineral da região e estimularam a entrada dos garimpeiros.

A invasão, no entanto, se intensificou nos últimos anos e, no dia 10 de maio, um ataque armado contra a comunidade Palimiú acirrou a tensão na região.

Em 2020, ano da pandemia, o garimpo ilegal aumentou 30% na Terra Yanomami. Só o rio Uraricoera concentra 52% de todo o dano causado pela atividade ilegal.

O envio da força-tarefa para retirar os garimpeiros da Terra Yanomami ocorre mais de um mês depois que o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, determinou que o governo federal adotasse medidas para proteger o povo Yanomami e Munduruku, no Pará.

Mas, assim que a força-tarefa se retirar, há uma grande probabilidade dos garimpeiros voltarem, assim como fizeram em outras oportunidades após o fim das operações. Conforme a Polícia Federal disse, esta é a quinta somente neste ano, e o problema está muito longe de terminar.

Fora Garimpo na Terra Indígena Yanomami – Foto: Victor Moriyama/ISA