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TÁ OSSO: Secretária diz que ossinhos doados em Cuiabá tem valor nutricional

A secretária de Assistência Social do Mato Grosso ainda lamentou o teor “pejorativo” da reportagem do Fantástico sobre a procura por ossos doados.

Por Marcelo Winter - Rondônia Já

quarta-feira, 28/07/2021 - 23:13 • Atualizado 31/07/2021 - 13:07
TÁ OSSO: Secretária diz que ossinhos doados em Cuiabá tem valor nutricional
Fila para receber ossos em Cuiabá - Foto: Divulgação

A secretária de Assistência Social e Cidadania do Mato Grosso (Setasc), Rosamaria Carvalho, lamentou que a doação de ossos de vaca feita em um açougue de Cuiabá, tenha repercutido na inprensa nacional de forma “pejorativa”. Ela ainda afirmou que o consumo de ossos é “nutritivo”:

“Precisamos ressaltar que osso tem grande valor nutritivo. Não tem uma conotação tão pejorativa como se coloca, pois contém carne e auxilia essas famílias que não tem condição de comprar um pedaço de carne”.

A fala da secretária foi durante distribuição de cestas básicas aos cuiabanos que se enfileiraram na porta do açougue, na quarta-feira (28).

O consumo de ossos, com grande procura das pessoas carentes, foi motivo de reportagem exibida no último domingo pelo Fantástico, da Rede Globo. A matéria mostrou o aumento do número de famílias que, sem dinheiro e alimentação adequada, buscam a doação. A reportagem também divulgou o depoimento da dona do açougue afirmando que existem pessoas que comem a carne crua em volta dos ossos na fila mesmo, por causa da fome. Uma realidade que se estende em muitos lugares do país governado por Jair Bolsonaro (sem partido).

O Fantástico também mostrou que o açougue faz doação de ossos há 10 anos, mas, antes, a distribuição que era feita uma vez por semana agora é nas segundas, quartas e sextas-feiras, por causa do aumento da procura desde que iniciou a pandemia.

Diante da repercussão nacional, a primeira-dama Virginia Mendes e a secretária Rosamaria Carvalho (Assistência Social e Cidadania), procuraram minimizar o impacto da reportagem, distribuindo cestas básicas, cobertores e itens de limpeza e higiene pessoal para as pessoas que se enfileiraram em frente ao açougue de  Cuiabá, em busca de doação de ossinhos de vaca.

Secretária de Assistência Social de MT Rosamaria Carvalho – Foto: Olhar Direto

Governo culpa Prefeitura

No mesmo dia, o governador do Mato Grosso decidiu ignorar o fato de que o Mato Grosso é o estado que tem o maior rebanho bovino do país, com 32 milhões de cabeças. Mauro Mendes (DEM), preferiu adotar uma tática muito usada por Bolsonaro, que é a terceirização da culpa, responsabilizando a prefeitura de Cuiabá, ao invés de admitir que o presidente no qual ele apóia é o verdadeiro culpado desta situação:

“O governo tem feito muito, mas o que a prefeitura está fazendo? Hoje vou divulgar a quantidade de cestas básicas que estamos distribuindo aqui. O governo tem feito no estado todo, mas as prefeituras tem que fazer também.

“Claro, fico chateado (com essa situação), mas o que a Prefeitura de Cuiabá está fazendo? Não é um problema do estado, o governo faz a sua parte e a prefeitura tá fazendo a dela?”

Mauro Mendes governador do Mato Grosso – Foto: Divulgação

A realidade

Na verdade, o Brasil tem quase 15 mihões de desempregados (14,8 mi), um índice recorde de 14,7%, segundo divulgação do IBGE em junho passado. Dados que fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Com isto, o Brasil ocupa a 14ª colocação no mundo entre os países com maior taxa de desemprego.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Mato Grosso registrou 180 mil pessoas desempregadas no primeiro trimestre de 2021. E para piorar, o botijão de gás no Estado custa cerca de R$ 125, o preço mais caro do país.

Em Cuiabá, a cesta básica sai por R$ 594,99, se tornando a segunda mais cara do Brasil. A capital mato-grossense fica atrás somente da cidade de São Paulo, onde o valor é de R$ 595,87, conforme Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Somando-se isto, ainda tem a alta da carne. De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA), também do IBGE, o preço da carne bovina aumentou 38% em média nos últimos 12 meses. A pesquisa aponta que em algumas capitais, como Rio Branco (AC), a alta da carne chegou à 59,27%.

O preço alto se dá por causa do aumento nas exportações de carne para outros países. Neste caso, o que sobra para alguns, falta para outros, como o povo brasileiro, por exemplo.

E a carne não é o único artigo da mesa nacional que está com preço estratosférico. O arroz, teve alta de 70% em 12 meses, de acordo com o IPCA do IBGE.

O alto preço dos combustíveis também influencia nesta conta, visto que os alimentos são transportados do campo para as capitais.

E ainda tem o fator pandemia. O auxílio, antes pago pelo Governo Federal, de R$ 600, caiu para R$ 150, o que refletiu na renda de quem está vulnerável à péssima situação econômica do Brasil.

Todos estes fatores sobram mesmo é para a população mais pobre, que já tinha pouco antes da crise e agora precisa se alimentar com ossos, que segundo a secretária do Mato Grosso são “nutritivos”.

A história de quem vive à beira da fome

No dia 19 de julho, o site Olhar Direto, de Cuiabá, foi até a fila dos ossos e entrevistou uma senhora que relatou a triste realidade de quem faz de tudo para não passar fome.

Ana Lúcia Costa, 71 anos, sai de sua casa de bicicleta para buscar os ossinhos. Ela explicou o modo de preparo, quando a fila para receber as doações se formou.

“Eu primeiro coloco uma panela de água fervendo e passo da panela ferventando para a panela com alho, cebola e frito bem para tirar o óleo. Tem muito óleo, depois escorro e coloco água, quando não coloco uma mandioquinha”, disse ela, que seguiu em busca de seu alimento.

Antes de ir buscar os ossos, ela disse que há três anos não havia tanta procura como vê hoje no açougue. “Eu lembro que quando comecei [pegar], eu ia na porta e eles davam e a gente ia embora. Não tinha esse tanto de gente, mas de um ano para cá, aumentou”. Veja o depoimento completo abaixo:

Fila enorme para receber ossos no MT – Foto: Rede Globo