Covid-19

Enquanto a mortalidade de gestantes aumenta, Governo Federal silencia sobre a vacinação do grupo sem comorbidades

Especialistas da Fiocruz afirmam que gestantes podem desenvolver formas graves da Covid19, com descompensação respiratória.

Liebe Schmidt

sábado, 05/06/2021 - 13:00 • Atualizado 06/06/2021 - 00:27
Enquanto a mortalidade de gestantes aumenta, Governo Federal silencia sobre a vacinação do grupo sem comorbidades
Mortalidade materna por Covid-19 - Foto: Divulgação

A taxa atual de letalidade entre gestantes e puérperas está em 7,2%, mais que o dobro da taxa de letalidade geral, no país, que é de 2,8%. Os dados fazem parte do último Boletim do Observatório Covid-19, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que abrange o período de 16 a 29 de maio de 2021.

Segundo o boletim, um estudo sobre a pandemia nas Américas, publicado em maio pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), verificou que, entre janeiro e abril deste ano, houve um aumento relevante de casos em gestantes e puérperas, e de óbitos maternos por Covid-19 em 12 países.

Os especialistas da Fiocruz afirmam que as gestantes podem desenvolver formas graves da Covid19, com descompensação respiratória, em especial aquelas que estão em torno da 32ª ou 33ª semanas de gestação, havendo até mesmo a necessidade de antecipar o parto.

De acordo com o Observatório Obstétrico Brasileiro Covid-19, os óbitos maternos em 2021 superaram o número notificado em 2020. No ano de 2020, foram 544 óbitos em gestantes e puérperas por Covid-19 no país, com média semanal de 12,1 óbitos, considerando que a pandemia se estendeu por 45 semanas epidemiológicas naquele ano. Até 26 de maio de 2021, transcorridas 20 semanas epidemiológicas, foram registrados 911 óbitos, com média semanal de 47,9 óbitos.

Além do aumento expressivo de óbitos, os especialistas alertam que a maior parte deles ocorre durante a gestação, e não no puerpério. Dentro deste grupo, o maior destaque é para o segundo e terceiro trimestres de gestação, apesar dos primeiros três meses serem considerados os mais delicados, pelo maior risco de abortamentos espontâneos, assim como alterações importantes no desenvolvimento embrionário. O Boletim indica que este cenário, de alto índice de óbitos no segundo e terceiro trimestres, tenha uma relação com as alterações morfológicas na gestante, principalmente a partir da metade do segundo trimestre, quando há mudança nas estruturas circulatórias para atender à demanda do crescimento fetal. Ao considerar isso, os especialistas afirmam que a vacinação realizada na gestante, ainda nos três primeiros meses, seja adequada para conferir proteção durante o segundo e terceiro trimestres.

Ação Civil Pública do MPF

O Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma Ação Civil Pública, solicitando a retomada da vacinação contra a Covid-19 em gestantes e puérperas sem comorbidades, em todos os estados brasileiros e Distrito Federal. O MPF argumenta que eventos esporádicos adversos após a aplicação da vacina AstraZeneca em gestantes não devem ser um impedimento para a vacinação com outros imunizantes liberados para esses grupos, como os da Pfizer e Coronavac. O órgão federal ainda ressalta que a decisão de suspender a vacinação de gestantes e puérperas sem comorbidades com outros imunizantes, como os da Pfizer e Coronavac, não segue corretamente a recomendação dada pela Anvisa.

Relembre a suspensão da vacinação

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendou ao Ministério da Saúde, em 11 de maio de 2021, a suspensão da vacinação de grávidas com o imunizante da AstraZeneca, após comunicado da Fiocruz sobre suspeita de grave acidente vascular cerebral hemorrágico com plaquetopenia, ocorrido em gestante, com óbito fetal, após a administração da vacina.
Após a recomendação, o Ministério da Saúde decidiu vacinar apenas gestantes e puérperas com comorbidades, utilizando os imunizantes da Pfizer e Coronavac. Gestantes e puérperas sem comorbidades foram retiradas do grupo prioritário, segundo divulgação da 7ª edição do PNO (Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação).

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Rondônia tomou a dianteira

O Estado de Rondônia, através de pacto entre SESAU e Comissão Intergestores Bipartide de Rondônia (CIB), decidiu  retomar a vacinação de gestantes e puérperas sem comorbidades desde o dia 20 de maio de 2021.

A decisão decorreu de um Alerta Epidemiológico publicado em maio pela Agência Estadual de Vigilância Sanitária de Rondônia (AGEVISA), que relata a crescente mortalidade materna em 2021, comparativamente ao ano de 2020. O alerta indica que no primeiro quadrimestre de 2021, de 21 mulheres, entre gestantes e puérperas, que vieram a óbito, 17 delas foram por Covid-19. Em 2020, 4 mulheres, de um total de 18, faleceram em decorrência dessa doença.

Gestante sendo atendida em hospital – Foto: France Presse

A Resolução nº 093/2021/SESAU-CIB, que pactuou a vacinação das gestantes e puérperas contra a Covid-19 no Estado de Rondônia, independentemente de comorbidades, assinalou que tal recomendação está de acordo com o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a COVID-19 (PNO), onde consta textualmente “… orientamos os gestores municipais que as recomendações do PNO sejam seguidas, sem a inclusão ou inversão da ordem de prioridades de outros grupos, A MENOS QUE EXISTAM JUSTIFICATIVAS BASEADAS EM EVIDÊNCIAS CIENTÍFICO EPIDEMIOLÓGICAS”.

A Secretaria Municipal de Saúde de Porto Velho reiniciou a vacinação das gestantes e puérperas, acima de 18 anos e sem comorbidades, em 31 de maio e atualmente não faz exigência de indicação médica.

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A vacinação do grupo em outros Estados

Não há notícias de outros Estados, além de Rondônia, que já tenham retomado a vacinação de gestantes e puérperas sem comorbidades, contra a Covid-19. Os municípios de São Paulo, Campinas e São Bernardo do Campo irão retomar a vacinação desse grupo na próxima segunda-feira (7), com a exigência de indicação médica. Os imunizantes usados serão apenas os da Pfizer e Coronavac, para as gestantes. As puérperas poderão receber a vacina da AstraZeneca. O governador João Doria anunciou a imunização de grávidas sem comorbidades, em todo o estado, a partir do dia 10 de junho.