Cultura

“Na Beira das Matas”: Professor Gustavo Abreu publica livro de poesias em Rondônia

Professor, pesquisador, músico e poeta rondoniense faz seu primeiro lançamento literário em plataforma digital.

Por Redação Rondônia Já

domingo, 23/05/2021 - 16:58 • Atualizado 24/05/2021 - 12:44
“Na Beira das Matas”: Professor Gustavo Abreu publica livro de poesias em Rondônia
Livro Na Beira das Matas do professor e escritor Gustavo Abreu - Foto: Divulgação

O professor, pesquisador, músico e poeta Gustavo Abreu publicou na sexta-feira (21 )de maio, o seu primeiro livro de poesias “Na Beira das Matas: poemas diversos”.

Na Beira das Matas é um livro que traz poemas com imagens ligadas à uma regionalidade ao mesmo tempo urbana e amazônica: os rios e as matas, pássaros e povos indígenas; problemas da cidade e dificuldades financeiras, o sobressalto político e a falta de tempo.

Tudo isso alimenta uma poética que se mistura com desejos, enfrentamentos, sonhos e percepções de um poeta de refinada percepção estética e humanista.

Gustavo é formado em Geografia pela Universidade Federal de Rondônia, e é também doutor em Geografia pela Universidade Federal do Paraná, tendo feito estágio de doutorado na França, Paris-Sorbonne IV. É membro do Grupo de Pesquisa sobre Modos de Vida e Populações Amazônicas – GepCultura (UNIR).

Especialista em filosofia e Psicologia Social, desenvolve pesquisas com aspectos voltados à sensibilidade humana e questões artísticas e ambientais.

“Na Beira das Matas” está publicado no site da Amazon, em formato digital. O livro foi publicado de maneira totalmente independente, o autor explica: “Inicialmente organizei um outro livro de poesias denominado “Paisagens Poéticas: fogo e água, terra e ar” o qual, por alguns imprevistos editoriais ainda não foi lançado.

Inclusive, é interessante porque, de certa forma, esses “problemas editoriais” foram um estímulo decisivo para que eu publicasse meu primeiro livro de maneira totalmente independente.”

Abaixo uma pequena entrevista com o autor:

Rondoniaja.com – Quais foram as suas inspirações para esse livro?

Gustavo Abreu – Acho que principalmente coisas do dia a dia, o enfrentamento nosso mesmo com a lida diária. Esse momento de pandemia em que vivemos é muito delicado, muito difícil. A poesia se torna então uma válvula de escape, é uma maneira de desabafar.

Claro que muitos dos elementos poéticos surgem de aspectos da vivência regional, das paisagens: os rios, as matas… queira ou não queira quando eu via já estava escrevendo sobre isso.

Mas tem também o lado mais urbano, a correria que essa vida agitada nos impõe, o excesso de individualismo, a violência, um pouco dos problemas políticos… Eu percebo que nos meus poemas também aparece um pouco dessas coisas.

“Tantas mensagens,
informações, velocidades,
cores e fotos nas redes
sociais me assustam.

Até onde eu consigo pensar
com tudo isso?
Até onde eu consigo ser
realmente Eu com tudo isso?”
(trecho do poema: A alma dos meus pensamentos)

Rondoniaja.com – Parece que em alguns dos seus poemas há uma certa crítica as redes sociais, como é isso?

Gustavo Abreu – Acho que não é uma crítica às redes sociais, mas mais uma reflexão do que essas redes estão fazendo conosco.

Essa tecnologia às vezes nos consome, são informações que passam muito rápido e às vezes não dá tempo da gente absorver, processar. Um dos grandes males da humanidade nos dias de hoje é o estresse, as pessoas estão cansadas, a correria é terrível.

Como disse aquele filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, no livro “A sociedade do cansaço”, hoje nós vivemos na sociedade do desempenho, é culturalmente cobrado de nós ser bem-sucedido em praticamente tudo: ter um corpo atlético, ter um ótimo padrão de vida, uma excelente relação conjugal… essas coisas cansam.

Não estamos tendo a chance de desenvolver as nossas aptidões emocionais mais básicas: a solidariedade, o bem querer, o amor e respeito próprios; muitas vezes não entendemos nem os nossos próprios sentimentos. Precisamos de ter um certo “tempo mental e emocional” pra olhar a vida com olhos mais amenos, mais calmos.

Gustavo Abreu – Professor e escritor – Foto: Rede social

“Eu pego um livro,
ponho debaixo do braço
E me dá aquela vontade bizarra
de olhar o celular

Eu desligo o wi-fi,
e vou respirar…
(trecho do poema: Wi-fi)

Eu não me alimento só com a boca!
Eu me alimento com o que vejo
Com o que ouço
Com o que penso
Com o que sinto”
(trecho do poema: Um vulto)

 

“Precisamos aprender a ser
como as crianças
Que se encantam com um grilo,
com uma nuvem,
com uma vaca na beira da
estrada.”
(trecho do poema: Nuvens)

 

MULHERES DECIDIDAS 2

“As mulheres decididas,
estão em minha vida!
E na vida de todo homem feliz!

De todo homem sem medo da sua
feminilidade
docilidade
amabilidade

Todo homem bem resolvido consigo mesmo,
ama a voz das mulheres

A mulher é o poema que sintetiza a poesia
E o homem,
é a agonia de tentar decifrar o poema.

A mulher é o mecanismo invisível que desenha as gotas d’água no inverno
O homem é um chaveiro carregado no bolso balançando pra lá e pra cá

A mulher é uma gaveta de um móvel velho
É um envelope de cartas
É um cinzeiro com cinzas ainda quentes
É o poema recitado na última rua,
lindo, delicado
e ouvido por quase ninguém

Os estudantes procuram a atenção das moças
Os cegos se tranquilizam ao ouvir a voz feminina
As garrafas abrem como se abrem os olhos das garotas experientes

E passamos,
às vezes,
sem entender que a mulher é a vida da casa
É a verdadeira reza da alma

Todos nós passamos nove meses dentro de alguma delas
E saímos revoltados
por ter que abandonar tão belo lugar

Somos nutridos por seu seio
e por seu carinho e proteção
Seus olhos são lagos de estrelas
cuidando de nós

Até hoje,
42 anos de carnes e ossos,
desejos, sonhos e tristezas
Minha mãe ainda me sustenta nas mãos

O padeiro e o vendedor de peixe não esquecem.
O motorista de táxi
e também o professor ainda se lembram

Daqueles amores de ontem
Do largo abraço da mãe
Do conselho materno que alarga a alma.

Todo aquele que agride uma mulher
fica marcado como ficou Caim
A andar meio que perdido,
meio que atormentado pela Terra

Já, todo aquele que respeita a mulher
tem a sina da boa sorte nas mãos
Mesmo que erre,
o acerto lhe procura
Mesmo que chore,
a licença para o repouso lhe acompanha

E é assim,
vive sua vida talvez com pouca roupa
Talvez uma hora sem uma coisa,
outra hora sem outra

Mas está autorizado pela vida a viver
admirando a beleza

A mulher,
em si mesma
é a vida

Diversificada, rica, incompreendida
Mas é a vida!”

Livro Na Beira das Matas – Foto: Divulgação