Indígenas

Kit Covid foi distribuído a indígenas de várias regiões, incluindo os povos Suruí e Cinta Larga, de Rondônia

O Ministério da Saúde distribuiu cerca de 265 mil comprimidos de cloroquina, azitromicina , ivermectina e tamiflu a indígenas de cinco estados, com a finalidade de tratar infecções por Coronavírus.

Liebe Schmidt

quarta-feira, 26/05/2021 - 10:00
Kit Covid foi distribuído a indígenas de várias regiões, incluindo os povos Suruí e Cinta Larga, de Rondônia
Indígenas e a Covid-19 - Foto: UOL

O Ministério da Saúde distribuiu cerca de 265 mil comprimidos de cloroquina, azitromicina , ivermectina e tamiflu a indígenas de cinco estados, com a finalidade de tratar infecções por Coronavírus. Tais medicamentos não têm eficácia no tratamento e ainda podem trazer riscos à saúde, conforme pesquisas divulgadas.

O envio maciço desses medicamentos à indígenas foi abordado no segundo dia de depoimentos na CPI da Covid e, inquirido, o general Eduardo Pazuello declarou que tais remédios foram enviados para tratamentos previstos na bula e não para o combate à Covid-19. O Ministério da Saúde também adota essa estratégia de argumento.

A cloroquina, conforme bula, é usada no tratamento da malária, amebíase hepática e outras doenças não relacionadas à infecção por coronavírus. A azitromicina é um antibiótico usado para tratar doenças do trato respiratório superior e inferior e a ivermectina é um remédio antiparasitário. Por fim, o Tamiflu é indicado para tratamento e profilaxia contra a gripe. Mas, documentos e registros do próprio ministério contrariam a versão de que as compras e distribuição desses medicamentos se destinaram a essas doenças.

O Ministério da Saúde divulga os gastos e ações de combate à pandemia no portal Localiza SUS, onde podem ser encontrados esses registros. Parte dessas drogas foi comprada diretamente por DESEIs (Distritos Sanitários Especiais Indígenas), vinculados ao ministério e com atuação de saúde junto às comunidades. Um informe técnico da SESAI (Secretaria Especial de Saúde Indígena) de junho de 2020 orientou os DESEIs a instruir seus respectivos processos de aquisição de cloroquina e hidroxicloroquina, caso municípios e estados se negassem a fornecer o medicamento.

Notas de empenho referentes a compras de azitromicina pelos DESEIs Alto Purus, no Acre, e Cuiabá registram que a aquisição do medicamento se destinou ao “enfrentamento da emergência de saúde pública decorrente do Covid-19” ou a “medidas de controle de infecção humana pelo novo coronavírus”. O empenho autorizou o gasto para aquisição de 20 mil comprimidos de 500 mg para os indígenas do Acre, no total de R$ 36,4 mil. Cada comprimido saiu por R$ 1,82. A azitromicina adquirida pelo DESEI Cuiabá, no valor total de R$ 25 mil, também tinha dosagem de 500 mg e cada comprimido custou R$ 1,25.

Também houve compras de antibiótico azitromicina por DESEIs em Mato Grosso para os indígenas do Xingu e para os Xavantes. Em Rondônia, para etnias como Suruí e Cinta Larga, houve uma compra de 48,5 mil comprimidos desse medicamento. A DESEI de Vilhena adquiriu diretamente 18,8 mil de comprimidos de cloroquina para as mesmas etnias de Rondônia. As compras também estão associadas a ações contra a Covid-19.

O mesmo Localiza SUS faz um detalhamento do envio de 100,5 mil comprimidos de cloroquina, todos eles destinados a indígenas em Roraima. O objetivo foi o tratamento de Covid-19, segundo o portal. Do total distribuído, 39,5 mil se destinaram aos Yanomami em Roraima. O restante foi usado em comunidades da terra indígena Raposa Serra do Sol.

Esta prática é  muito comum. Em reportagem do site Amazônia Real, em 02 de julho de 2020, é citada uma missão interministerial de emergência de combate à pandemia da Covid-19, com a presença do Ministro da Defesa e de representantes do Ministério da Saúde, que  levou 66 mil comprimidos de cloroquina 150 MG para o tratamento de indígenas de nove etnias das Terras Indígenas Yanomami e Raposa Serra do Sol, em Roraima.

Ministro da Defesa entrega cloroquina a indígenas de Roraima – Foto: Amazônia Real

Dentro do mesmo contexto, houve 24 mil aquisições de  comprimidos de ivermectina pelos DESEIs Alto Rio Negro, que atende a Cabeça do Cachorro, e Xingu, em Mato Grosso.

O Ministério da Saúde distribuiu, ainda, 370,2 mil cápsulas de Tamiflu a indígenas em 16 estados. A pasta registra que o medicamento se destinou ao combate à influenza, mas o Tamiflu integra o kit do chamado “tratamento precoce” de Covid-19, previsto em protocolo.

A pasta ministerial foi questionada sobre cada compra e distribuição a indígenas, de medicamentos sem eficácia contra a Covid-19. Em relação à cloroquina, a nota divulgou que “o antimalárico é adquirido e enviado regularmente a 25 DESEIs que estão em área endêmica”. “Azitromicina e Ivermectina são medicamentos que constam na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename) e utilizados em diversos tratamentos de atenção primária do SUS. A aquisição de medicamentos da Rename é feita a partir das demandas de atendimento dos DESEIs”, afirma a nota.

Segundo o Ministério, serviços básicos de saúde não foram suspensos durante o pico da pandemia. “Somente em 2020, foram realizados mais de 12,1 milhões de atendimentos nas aldeias e contratados mais 700 profissionais para reforçar a assistência em saúde.”

 

Fonte: Folha de São Paulo