Indígenas

Garimpeiros jogam bombas de gás em indígenas e invadem Terra Yanomami em Roraima

Cerca de 20 mil garimpeiros entram e saem livremente da TI Yanomami segundo estimativas das lideranças indígenas. Tudo pela cobiça ao ouro, com a suspeita de apoio de facção criminosa.

Marcelo Winter, com informações do G1 RR e Revista Vogue

quarta-feira, 09/06/2021 - 00:29 • Atualizado 15/06/2021 - 02:48
Garimpeiros jogam bombas de gás em indígenas e invadem Terra Yanomami em Roraima
Garimpo de ouro na TI Yanomami - Foto: Chico Batata/Greenpeace

Garimpeiros jogaram bombas de gás na comunidade Maikohipi, na região de Palimiú, alvo de conflitos na Terra Indígena Yanomami. A informação foi divulgada nessa segunda-feira (7), pela Hutukara Associação Yanomami (HAY).

O ataque foi na madrugada do último dia 5. Indígenas que moram em Maikohipi, disseram que os garimpeiros chegaram divididos em quatro barcos, invadiram a comunidade e atiraram as bombas de gás lacrimogênio. Ainda não há informações sobre feridos.

Os Yanomami se refugiaram na floresta antes dos garimpeiros entrarem na sua comunidade.
A região fica às margens do rio Uraricoera, em Alto Alegre, Norte de Roraima, e é rota usada por garimpeiros que entram ilegalmente na Terra Yanomami. No dia 10 de maio, invasores à bordo de um barco, abriram fogo contra a comunidade Palimiú, próxima à Maikohipi, e a partir daí houve uma sucessão de ataques.

O relato das lideranças indígenas foi repassado à Associação Yanomami por telefone. Na segunda-feira(7), um ofício com pedido de segurança foi feito à Fundação Nacional do Índio (Funai), Polícia Federal, Exército e Ministério Público Federal.

O documento, assinado pelo vice-presidente da HAY, Dário Kopenawa Yanomami, afirma que relato dos indígenas protesta contra a situação de insegurança vivida na região por conta da presença de garimpeiros na Terra Yanomami, apesar de todos os avisos.

Maior reserva indígena do Brasil, a Terra Yanomami tem quase 10 milhões de hectares entre os estados de Roraima e Amazonas. Cerca de 27 mil indígenas vivem na região, alvo de garimpeiros que invadem a terra em busca da extração ilegal de ouro.

Em 2020, o ano da pandemia, o garimpo ilegal avançou 30% na Terra Yanomami. Só o rio Uraricoera concentra 52% de todo o dano causado pela atividade ilegal.

A invasão garimpeira causa a contaminação dos rios e degradação da floresta, o que reflete na saúde dos Yanomami, principalmente crianças, que enfrentam a desnutrição por conta do escasseamento dos alimentos.

Em 24 de maio, uma decisão do Supremo Tribunal Federal ordenou que o governo federal adotasse medidas para proteger a Terra Yanomami. Antes, uma outra medida judicial determinou o envio de efetivo armado para que ficasse de forma permanente em Palimiú, mas, o Governo Federal se recusou à cumprir estas medidas até o momento, realizando apenas operações pontuais.

Entre os dias 12 de maio e 4 de junho, sete garimpos ilegais foram desativados durante operação do Exército na região de Palimiú.

Terra Indígena Yanomami – Foto: Divulgação

Ataque anterior para recuperar material apreendido

Por volta das 16h de segunda-feira (31), oito garimpeiros encapuzados adentraram na base da Estação Ecológica de Maracá, em Roraima e fizeram refém os 03 brigadistas prestadores de serviço ao ICMBio que estavam no local. Além disso, levaram todos os materiais que haviam sido apreendidos na operação de fiscalização Maracá, realizada há duas semanas na Unidade de Conservação (UC); roubaram 05 quadriciclos, 08 motores de popa e outros materiais apreendidos e de patrimônio da unidade.

Na investida contra a unidade, os garimpeiros, fortemente armados com fuzis, buscavam agentes de fiscalização do ICMBio e afirmaram que se tivessem encontrado fiscais, eles não seriam poupados. Durante a saída,  alertaram que  estavam monitorando todos os servidores e que iriam queimar as viaturas do órgão caso encontrassem alguma.

Os brigadistas mantidos sob refém foram obrigados a levar os materiais até o porto de acesso à unidade.  Logo após foram liberados e os garimpeiros seguiram pelo rio Uraricoera que limita a unidade e dá acesso a terra indígena Yanomami, direto para as regiões de garimpo ilegal.

Há fortes indícios que uma facção criminosa está por trás das ações dos garimpeiros na região.

Garimpo na TI Yanomami – Foto: Chico Batata/Greenpeace

Relato de liderança indígena

A revista Vogue publicou no domingo(6) o relato de Junior Hekurari – presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana (Condisi-YY) que cita a seguingte situação:

“O primeiro ataque foi um tiroteio, em 24 de abril, mas a situação começou a ficar mais tensa no dia 10 de maio. Desde 2020, o garimpo aumentou muito na TIY, cerca de 80%.

Agora, tem mais de 20 mil garimpeiros entrando e saindo livremente. Para nos proteger, levantamos uma barreira sanitária no rio Uraricoera, que corta as regiões de Alto Alegre e Palimiú, há uns quatro, cinco meses.

Toda essa violência que estamos vivendo agora é uma retaliação por conta dessa barreira. O coronavírus chegou nas aldeias por conta dos invasores. Temos muitos yanomamis mortos desse vírus, nada disso tem registro. Explodiu muito rapidamente em nossas terras. Além de trazerem doenças e crueldade, eles sujam nossos rios, ficamos sem ter o que beber, sem ter como pescar. Eles são financiados por gente muito rica, estamos lidando com armamento de guerra, helicópteros, lanchas, metralhadoras, fuzis, tratores à diesel. Não existe conflito, é uma política de extermínio. A gente só sofre pressão, é só violência. Nós não temos o básico, nos falta comida e saúde, como vamos lutar contra gente tão poderosa?

Queremos viver em paz, queremos que cuidem das nossas famílias. Isso tudo está na lei e não está sendo feito. Estamos pedindo socorro, precisamos de apoio. Desde a entrada dos garimpeiros a nossa população sofre, são tempos em que eu sequer era vivo. Todo mundo sabe sobre o massacre de Haximu, o genocídio que dizimou mais de 16 indígenas em 1993, mas houveram vários outros que ninguém conhece, ninguém fala.”

Criança Yanomami de 8 anos com desnutrição crônica – Foto: Divulgação

Desnutrição consequente do garimpo

Os Yanomami convivem com a desnutrição infantil há décadas. Estudo do Unicef (braço da Organização das Nações Unidas para a infância) e a Fiocruz aponta que oito em cada dez crianças menores de 5 anos têm desnutrição crônica, nas regiões de Auaris e Maturacá, dentro da Terra Indígena Yanomami.

A pesquisa, divulgada em maio de 2020, revela que 81,2% das crianças têm baixa estatura para a idade (desnutrição crônica), 48,5% têm baixo peso para a idade (desnutrição aguda) e 67,8% estão anêmicas.

O quadro está associado à maior mortalidade e à recorrência de doenças infecciosas, além de causar prejuízos no desenvolvimento psicomotor da criança.

Segundo um dos autores do estudo, o pesquisador e médico especialista em saúde indígena Paulo Basta, a desnutrição que acomete os indígenas está diretamente ligada ao abandono do estado e à ausência de políticas públicas inclusivas e não à pobreza.

Os indígenas se alimentam de produtos que a floresta oferta. No entanto, ressalta o pesquisador, a chegada de não indígenas, com a estruturação de pelotões especiais de fronteira do Exército e de unidades de saúde, além da presença de missões religiosas e garimpeiros, provoca um escasseamento dos alimentos ao afugentar a caça e contaminar os rios.

Na mineração do ouro, o garimpo usa mercúrio, substância que acaba gerando graves danos ambientais e problemas neurológicos nas pessoas.