Indígenas

Helicóptero cai em garimpo ilegal da Terra Indígena Yanomami (RR) – VEJA O VÍDEO

O helicóptero estava pousando no garimpo ilegal em Terra Indígena para abastecer os garimpeiros.

Por Marcelo Winter - Rondônia Já

sábado, 26/06/2021 - 02:55 • Atualizado 23:40
Helicóptero cai em garimpo ilegal da Terra Indígena Yanomami (RR) – VEJA O VÍDEO
Queda de helicóptero em garimpo ilegal de Terra Indígena em RR - Foto: Redes sociais

Um vídeo gravado em um garimpo ilegal de Roraima mostra a queda de um helicóptero no local. Nas imagens, registradas na tarde de quinta-feira(24) e divulgadas na tarde de sexta-feira (25). Uma testemunha gravou a aeronave aparece já caída. Garimpeiros tentam fazer o resgate do piloto e outro ocupante.

O helicóptero caiu na área conhecida como “fofoca”, um riacho onde o minério é extraído de forma irregular da Terra Indígena Yanomami. Esta área fica próxima ao Rio Mucajaí, que também corta o município de mesmo nome. VEJA O VÍDEO ABAIXO:

A aeronave, possivelmente estava no local para fazer o abastecimento dos garimpeiros, visto que o local é de dificil acesso. Esta hipótese é de acordo com relatórios de operações antigas feitas na área pela Funai, PF e Exército, em Governos anteriores.

Até sexta-feira o Governo de Roraima não havia sido acionado para atender a ocorrência. Não há informações sobre as condições do piloto e do co-piloto do helicóptero acidentado. Segundo depoimento no vídeo, a mesma aeronave já teria caído em vez anterior, sem vítimas.

Prisão de garimpeiros no mesmo dia

No mesmo dia da queda do helicóptero, a Polícia Rodoviária Federal prendeu 4 garimpeiros na BR-174, próxima de Boa Vista, capital de Roraima, com quase R$ 100 mil em espécie e 10 gramas de cassiterita.

A abordagem foi durante ronda de rotina. Os suspeitos foram encaminhados para a Superintendência da Polícia Federal em Boa Vista, junto com o minério e o dinheiro.

Garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami – Foto: Christian Braga/Greenpeace

Histórico do garimpo ilegal

O garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami teve início na ditadura militar, durante os anos 1970, quando os militares lançaram o primeiro mapeamento mineral da região, o projeto Radam, que em pouco tempo atraiu pelo menos 500 garimpeiros para o território, quando ele ainda não reconhecido formalmente como terra indígena ( isso só aconteceu em 1992).
Não demorou para o quantitativo de garimpeiros na região chegar a 40 mil, praticamente o dobro da população indígena que existe agora no local.
Foi o mapeamento mineral promovido pelos ditadores militares o responsável da cobiça pelo subsolo amazônico.
Mesmo após o fim da ditadura, a Força Aérea abriu, em 1986, uma pista de pouso a mando do Ministério da Aeronáutica. Era tudo os que precisava para o começo de longas décadas de irregularidades, até hoje não sanadas.

Ataques recentes de garimpeiros

No dia 24 de abril, houve um tiroteio entre garimpeiros e indígenas, sem vítimas.

Em 10 de maio, sete embarcações com garimpeiros abriram fogo contra dezenas de indígenas sentados à beira do rio Uraricoera.

Em 31 de maio, oito garimpeiros fizeram 03 brigadistas reféns numa base do ICMBio. O grupo roubou também 05 quadriciclos, 08 motores de popa e outros materiais apreendidos numa operação do Exército que desativou sete garimpos ilegais na região de Palimiú.

No dia 07 de junho, garimpeiros, em 4 barcos, atacaram uma comunidade indígena Yanomami com bombas de gás lacrimogênio.

Em 17 de junho,  garimpeiros afundaram uma canoa com crianças a bordo, que precisaram nadar para se salvar do ataque.

Existem indícios que os garimpeiros tem apoio de uma facção criminosa de São Paulo que atua dentro e fora dos presídios.

Segundo Junior Hekukari, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indigena Yanomami e Ye’kuana (Condisi-YY), “desde 2020, o garimpo aumentou muito na Terra Indígena Yanomami, cerca de 80%”.

A inércia do Governo Federal

Após o Governo Federal desobedecer a Justiça Federal e um ministro do STF, o pleno do Supremo, em sessão realizada em 16 de junho, determinou ao Governo Federal a adoção imediata de todas as medidas necessárias para garantir proteção de vida, da saúde e da segurança das populações indígenas nas Terras Yanomami, em Roraima e Munduruku, no Pará.

Até o momento, o presidente Jair Bolsonaro não tomou nenhuma medida e ao que parece, vai mais uma vez desobedecer a mais alta corte do país, em mais uma demonstração de escárnio perante as autoridades.

Este tipo de estratégia parece ser proposital, pois a Câmara dos Deputados aprovou, no dia 23 de junho, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) o relatório da deputada federal bolsonarista Bia Kicis (PSL) sobre o PL 490, que segue agora para o plenário . Se o projeto for aprovado de forma definitiva, a Terra Indígena Yanomami, criada em 1992, pode deixar de existir, na pior das hipóteses. Na melhor alternativa, o garimpo poderá ser liberado. Entenda o que é este projeto abaixo.

O PL 490

O  PL 490/ 2007 prevê o “marco temporal” e prevê que só poderão ser consideras terras indígenas aquelas que já estavam em posse dos povos indígenas na data da promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988, passando a exigir uma comprovação de posse, o que hoje não é necessário. O texto também flexibiliza o contato com povos isolados, proíbe a ampliação de terras que já foram demarcadas e permite a exploração de terras indígenas por garimpeiros.

“Na realidade é um retrocesso. O apavorante nesta situação é que o presidente da Câmara apoia, defende e insiste nesta pauta. Mas, sabemos que tem insistência de uma “eminência parda” por trás desta proposta e a insistência em colocar em votação. Infelizmente o Movimento indígena tem pouquíssimos representantes no Congresso e isso, pode representar uma fragilidade e desvantagens para os povos indígenas. Por outro lado, a sociedade brasileira também se mostra apática em relação a esta pauta danosa aos ambientes e aos povos indígenas”, disse Nelcioney José de Souza Araújo, professor de geografia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

O ataque aos indígenas em Brasília

Um dia (22) antes da aprovação do relatório do PL 490, indígenas, em protesto no Congresso, foram atacados pelas Polícias Legislativa e Militar. Houve enfrentamento e feridos de ambas as partes. O episódio de violência contra os povos tradicionais foi repercutido em vários jornais do Brasil e do Exterior. Mais um trágico capítulo da história política do país, neste momento, que é um dos mais difíceis para a democracia. Em várias rodovias do Brasil, os indígenas seguem fazendo bloqueios em protesto contra o PL 490.

VEJA O VÍDEO DO ATAQUE DE 22/06:

 

 

Fontes: Correio Brasiliense, El País Brasil, Folha de Boa Vista