Indígenas

Pastores evangélicos convenceram indígenas que vacina é a “marca da Besta”

Segundo relatório entregue ao Senado e MPF, pastores evangélicos convenceram indígenas da Amazônia à não se vacinarem contra a Covid-19.

Marcelo Winter, com informações de Wanderley Preite Sobrinho/UOL

domingo, 27/06/2021 - 04:47 • Atualizado 28/06/2021 - 02:01
Pastores evangélicos convenceram indígenas que vacina é a “marca da Besta”
Povo Aurinã em Lábrea AM abordado por pastores evangélicos - Foto: Divulgação

Pastores evangélicos têm espalhado mentiras sobre a vacinação contra a Covid-19 em aldeias na região Norte do Brasil. É o que cita um requerimento entregue pela Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Povos Indígenas à CPI da Covid no Senado. De acordo com o documento, uma dessas mentiras é de que a vacina já vem contaminada da China em um plano “diabólico”: usar o imunizante para marcar indígenas com o número da Besta, o 666 citado no livro bíblico do Apocalipse.

Segundo a Articulação dos Povos Indígenas (Apib), 56.174 indígenas, de 163 povos, foram infectados e deste total, 1.126 morreram de covid-19 desde o início da pandemia entre os cerca de 1,3 milhão de indígenas brasileiros. O Ministério da Saúde fala em 673 mortes.

Leia mais sobre o requerimento da Frente Parlamentar Mista

O documento, entre várias informações de irregularidades cometidas contra os indígenas, diz que no entorno de Santo Antônio do Içá, no Alto Solimões, no Amazonas, pastores evangélicos espalham mentiras entre integrantes do povo Kokama. O requerimento cita as palavras ditas aos indígenas: “que o imunizante os transformaria em animais, homossexuais ou os mataria” e que “neles seria implantado um chip que carregaria a ‘marca da Besta'”.

Milena Kokama (63), vice-presidente da Federação Indígena do Povo Kokama, confirma as informações. A líder indígena, em entrevista ao portal UOL, fala que a estratégia é usada “em todo o estado do Amazonas”:

“Eles primeiro se aproximam da liderança da aldeia, se fingem de amigos e daqui a pouco casam com a filha da liderança: pronto, eles entram na aldeia e já constroem uma igreja. Eles falam que a vacina não é coisa de Deus, que já vem contaminada da China e que Deus vai proteger quem não tomar.”

Milena Kokama, líder do povo Kokama – Foto: Divulgação

Casal de pastores evangélicos americanos

O requerimento diz que em 2 de fevereiro, um helicóptero da Força Aérea Brasileira (FAB) com vários agentes de saúde e doses de vacina foi cercado por homens e mulheres empunhando arcos e flechas às margens do rio Purus (sul do Amazonas), na terra indígena dos Jamamadis.

De acordo com o documento, os indígenas disseram que não receberiam o imunizante enquanto um missionário americano não fosse liberado para entrar na região e “os orientasse sobre a vacina”.

Segundo o documento, eles se referiam a Steve Campbell e sua esposa, ambos da Greene Baptist Church. Steve foi expulso da região em dezembro de 2018 pela Funai, por entrar ilegalmente nas terras da etnia Hi-Merimã, que vive isolada e é vizinha dos Jamamadis.

Campbell afirmou à Funai que precisou entrar em território Hi-Merimã como única maneira de acessar os Jamamadis, a quem estaria ensinando a usar GPS.

Este é um dos casos que motivou a Articulação dos Povos Indígenas e o PT à entrar no STF com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) para impedir a entrada de religiosos em terras onde tem indígenas isolados.

Steve e Robin Campbell, casal de pastores evangélicos norte-americanos entre os Jamamadi – Foto: Divulgação

As mentiras dos pastores evangélicos brasileiros

O relatório contido no requerimento afirma que nas comunidades próximas ao rio Içá, afluente do Amazonas, “pastores teriam se dirigido ao município em tentativa de impedir que as vacinas chegassem na comunidade”. Os responsáveis por isso, segundo o documento, seriam da Igreja Mundial do Poder de Deus, liderada por Valdemiro Santiago, e da Igreja Internacional da Graça de Deus, do pastor R.R. Soares. O portal UOL procuradas por email, as congregações, que não responderam aos questionamentos.

De acordo com a União dos Povos Indígenas da região, em relato no documento, na maior concentração de povos isolados do mundo, no Vale do Javari (oeste do Amazonas), “aldeias já disseram à Sesai [Secretaria Especial de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde] que não irão aceitar a vacina”,

Beto Marubo, representante da entidade afirma que apenas as comunidades vinculadas a grupos evangélicos seriam resistentes à imunização. “Na comunicação que eles fazem por rádio, que todas as aldeias escutam, eles dizem que a vacina foi fabricada muito rápido para os indígenas virarem cobaia”, diz .

Milena diz que, para chegar ao Alto Solimões, onde vive seu povo, são cinco dias de barco. Não tem rua nem carro. “As informações chegam aqui distorcidas, perfeito para esses pastores”, diz.

De acordo com o requerimento entregue à CPI, em outra parte da Amazônia Legal, no Maranhão,  na Terra Indígena Arariboia, pastores evangélicos da igreja Assembleia de Deus teriam usado áudios e vídeos pelo celular, sistema de rádio das aldeias e cultos presenciais para convencer os indígenas “a não se vacinarem”. Procurada por email e telefone, a igreja também não respondeu.

Trecho de requerimento entregue à CPI da Covid cita:

“Tem pregação feita por pastores de que a vacina vem junto com um chip, que tem o número da Besta, que quem toma a vacina vira jacaré.”

A mesma situação também teria ocorrido em aldeias de Itacoatira (Amazonas), Xingu (Mato Grosso) e Rondônia, segundo a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira.

Milena Kokama, líder do povo Kokama, disse:

“Não acredito nesse Deus que eles falam que quer ver sua criação morrer. Como se Ele não quisesse que eu nascesse indígena. Então por que Ele me fez indígena? Já nasci condenada a morrer de covid? Deus já está atendendo nossas orações ao nos dar a vacina.”

Zé Bajaga Apurinã, cacique e líder indígena – Foto: Divulgação

Ze Bajaga Apurinã (55), uma das lideranças do povo Apurinã e cacique da aldeia Decorã (AM), disse que:

“Há uma lavagem cerebral nas aldeias com mais evangélicos. Eles dizem que a vacina é uma marca para arrebatar ao inferno no dia do Juízo Final. Todos os que morreram de Covid foram recebidos pelo Demônio e que a vacina marca os que sobreviverem à doença.”

De acordo com o cacique, a própria tia, evangélica, era contra a vacinação na aldeia até que a filha dela morreu após infecção por covid-19. “Aí ela disse que teve um sonho e foi tomar a vacina”, fala Bajaga.

“A maioria desses missionários chega em nossas casas, aprende a nossa cultura, as nossas crenças e depois usa contra nós. Tem de impedir esses missionários de entrar em nossa aldeia.”

Milena Kokama afirma que “não é só isso”:

“Quando morre um indígena por covid, dizem que é pardo. Eu não sou parda, eu nasci Kokama. Além de o nosso povo estar sendo enterrado em cova coletiva, sem dignidade nenhuma, no último documento diz que a gente não é indígena.”

Em março deste ano, a Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas encaminhou a denúncia ao MPF (Ministério Público Federal), que instaurou um procedimento no Maranhão. O órgão pediu informação aos DSEIs (Distritos Sanitários Especiais Indígenas), os gestores do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena.

Em resposta, afirmaram que “todos os esforços estão sendo empreendidos pelos profissionais de saúde a fim de superar a campanha de desinformação e vacinar as comunidades”, diz o MPF, que, no entanto, não respondeu se a prática é criminosa e nem quais os esforços para convencer os indígenas a não acreditar nas fake news dos pastores evangélicos.

O portal UOL também procurou a Funai, que em nota afirmou que “não cuida diretamente da matéria, mas, sim, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai/Ministério da Saúde)”. Procurado, o Ministério da Saúde também não respondeu.

O mesmo requerimento entregue à CPI da Covid mostra, ao todo, 7 situações graves, entre elas a entrega de medicamentos ineficazes contra a Covid para os indígenas por parte do Ministério da Saúde e como garimpeiros trocaram ouro por vacina. Todo este material está sob análise dos senadores da Comissão, que apuram as diversas irregularidades do Governo Federal na condução da pandemia no país.

Ritual indígena pelo fim do genocídio em Brasília – Foto: Apib

Nem tudo está perdido

Na tarde de sexta-feira (25), em Brasília, o Movimento Indígena realizou um ato espiritual tradicional pelo fim do genocídio do povo brasileiro durante a pandemia da Covid-19. A ação foi organizada pelo Acampamento Levante Pela Terra (ALT), que mobiliza há três semanas, mais de 850 indígenas de 50 povos de todas as regiões do país.

“Não são números, são vidas que estão sendo perdidas. Vamos fazer nossas rezas para homenagearmos as pessoas que ancestralizaram nesta pandemia”, reforçou Dinamam Tuxá, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

Hoje, mais de 500 mil brasileiros morreram pela Covid-19. Mais de 50% dos 305 povos que vivem no Brasil foram diretamente afetados pela pandemia, com mais de 56 mil contaminados e 1126 indígenas mortos, de acordo com dados do Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígena da Apib.

A manifestação foi um grande ritual espiritual ao som dos cantos indígenas e Maracás, em memória às pessoas assassinadas pela política de morte do presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia de COVID 19 no Brasil.

Sinal de que as mentiras contadas por pastores evangélicos está longe de convencer a totalidade das etnias indígenas brasileiras.

Fonte: UOL