Indígenas

O que está por trás do suicídio de jovens indígenas no Paraná

Muitas crianças indígenas sequer vão às escolas nas cidades próximas porque não têm roupa, cadernos ou livro como as demais.

O Globo/Redação Rondônia Já

sexta-feira, 13/08/2021 - 16:06 • Atualizado 18:22
O que está por trás do suicídio de jovens indígenas no Paraná
Indígenas das aldeias da cidade de Santa Helena, no Paraná - Foto: Cimi

No terceiro domingo de julho, T. passou a manhã com os pais e os sete irmãos na Terra Indígena Ocoi, em São Miguel do Iguaçu (PR), um exíguo braço de mata em formato de V às margens do lago da hidrelétrica de Itaipu. No início da tarde, deixou a casa de madeira compensada para ir ver uma tia. Quando retornou, duas horas depois, a menina de apenas 13 anos estava entristecida. Contou à mãe que, no caminho, teria sido chamada numa casa da aldeia para pegar roupas que haviam sido doadas. Um homem a teria arrastado para a cama.

No início da noite, seu corpo foi encontrado a 20 metros de casa. Foi o 14ª suicídio de jovens indígenas registrado este ano no Oeste do Paraná – três deles apenas em julho passado. Nos sete primeiros meses de 2021 houve ainda 22 tentativas de suicídio. A idade média das vítimas não passa de 19 anos.

— Foi um desespero. Os irmãos dela se bateram nas paredes. Mas tem que se conformar, não tem outro jeito — diz Simão Tupã Retã Vilialva, pai da adolescente.

Nesta semana, o caso de uma menina indígena de 11 anos vítima de estupro coletivo e morta ao ser jogada de uma pedreira em Dourados (MS) chocou o país. O tio dela, que participou das agressões, foi encontrado morto dentro do presídio estadual.

Simão diz que há usuários de drogas dentro da aldeia e que a vida ali é difícil. Descreve onde mora como “um lugar pelado, onde não tem quase mata, não tem nada”. Até mesmo a água potável é escassa. Mesmo assim, o número de indígenas que vive ali chega perto de mil.

— O suicídio é um sintoma de várias causas. Os jovens enfrentam preconceito e racismo nas escolas e nas cidades do entorno. Não conseguem emprego, são chamados de bugres. As comunidades indígenas vivem na miséria, carentes de tudo. Há agressões, tentativas de assassinato, alcoolismo e drogas — afirma a procuradora Indira Pinheiro, que integra um grupo de autoridades que tenta buscar soluções para o suicídio de adolescentes e jovens indígenas.

Nos estados do Sul do Brasil, há cerca de 5 mil indígenas sem-terra, segundo levantamento do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Eles vivem em 57 acampamentos à beira de rodovias. A maioria mora em barracos de lona ou de madeira tipo compensado em terras sob disputa, com ameaça constante de reintegração de posse.

Paralisação de estudos para demarcação de territórios, insegurança jurídica das terras indígenas já ocupadas e o abandono são também pano de fundo para a tragédia que se abate no Paraná.

Muitas crianças sequer vão às escolas nas cidades próximas porque não têm roupa, cadernos ou livro como as demais. Os adultos ganham a vida com a venda de artesanato.

Roberto Liebgott, coordenador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) na região Sul, afirma que os avás-guaranis são exímios artesãos de balaios de taquara ou cipó e esculturas em madeira, a maioria de bichos da região.

Rituais em declínio

Na cultura indígena, no início da adolescência há rituais para marcar a entrada na fase adulta, que compreende principalmente cuidar da terra para tirar dela o sustento. A fase adulta chega, mas não a terra para que possam cultivar.

O apoio espiritual anda complicado. Ilson Karai Okaju, 32 anos, um dos representantes da Tekoha Yhovy, acampamento à beira da rodovia que liga os municípios de Guaíra e Terra Roxa, conta que muitos caciques têm se tornado pastores evangélicos, e as rezas e rituais espirituais da cultura indígena têm sido comparadas a seitas satânicas e “macumba”. Os antigos pajés e rezadores se afastam, e, segundo Okaju, as pessoas das comunidades ficam com vergonha de seus antigos cânticos, rezas e pinturas. O sexo, que para a maioria das culturas indígenas é livre, tornou-se um pecado.

Okaju diz que grupos evangélicos entram nas aldeias levando água e comida, acompanhadas de oração. Em troca da ajuda, diz ele, exigem o dízimo dos que conseguem trabalho e até dos inscritos no Bolsa Família.

Ao contrário do cacique, que pode ser trocado, o pajé é um ser que tem o dom da cura, premonição e previsão. E não tem sido fácil surgir rezadores como eles, explica Okaju.

— Quando não se pratica essa cultura, a tendência é perdê-la. E os jovens estão perdidos. Podem se distanciar socialmente, adoecer e até cometer suicídio, como está ocorrendo. Com a falta de rezadores, não tem como saber — resume.

Ele explica que o sentimento dos jovens indígenas, o nhemoryrõ, é similar à depressão, com o agravante de a cada dia ver mais distante a vida numa terra indígena estruturada.

Patrocínio estatal

A saída para melhorar a situação, diz Okaju, é um encontro de jovens com pajés e rezadores de outras aldeias. Cada rezador tem um dom e, para ajudar os jovens, é preciso reunir vários deles. Como geralmente são mais idosos, o encontro só deve ocorrer quando as condições da pandemia de Covid-19 permitirem.

O promotor Olympio de Sá Sotto Maior Neto, coordenador do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Proteção aos Direitos Humanos do Paraná, lembra que a expulsão dos indígenas de suas terras foi um movimento patrocinado pelos governos desde a década de 50.

Um acordo entre a União, o governo do Paraná e a Funai promoveu a expropriação das terras ocupadas por diversos povos, que acabaram sendo juntados e colocados em espaços exíguos, sem respeito à cultura de cada um. Outros foram dizimados.

A Comissão da Verdade do Paraná relatou que o povo Xetá foi expulso de suas terras para dar lugar a uma companhia de desenvolvimento privada. Sotto Maior Neto conta que eram cerca de 300 pessoas. Foram colocadas em caminhões e não há registro do destino. Apenas oito sobreviventes dessa população foram localizados no Paraná.

Transformados em sem-terra, povos indígenas do Sul vivem às margens da lei. Recentemente a Justiça Federal de Foz do Iguaçu negou pedido do MPF para obrigar a União a garantir direitos básicos à comunidade de avás-guaranis do município de Santa Helena durante a pandemia. Os procuradores pediam assistência médica, água, energia e cestas básicas. O argumento para a recusa foi justamente o fato de não estarem em um território indígena demarcado.

— Eles estão sofrendo o abalo pela forma com que estão sendo atacados. É uma desumanidade estrutural, como se não fossem sujeitos da dignidade da pessoa humana. O presidente disse que não demarcaria um centímetro de terra indígena, e diversos projetos no Legislativo tentam eliminar direitos já reconhecidos — diz o promotor.

Liebgott afirma que lideranças indígenas relatam ainda aceleração da cultura ocidental sobre a cultura indígena, que atinge principalmente os mais jovens. E isso gera incertezas, falta de perspectivas.

— Eles têm como referência uma terra sem males e buscam em outra dimensão, uma existência mais segura — diz Liebgott.

Fonte: por Cleide Carvalho em O Globo