Indígenas

Barroso proíbe missões religiosas em terras indígenas e bancada evangélica se revolta

Entenda, nesta reportagem, o motivo da proibição do ministro Barroso, do STF.

Rondônia Já com informações da Folha de São Paulo

sexta-feira, 24/09/2021 - 18:22 • Atualizado 26/09/2021 - 18:14
Barroso proíbe missões religiosas em terras indígenas e bancada evangélica se revolta
Luis Roberto Barroso - Foto: Ailton de Freitas

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), reafirmou o veto à entrada de missões religiosas em aldeias indígenas isoladas durante a pandemia da Covid-19.

A decisão provocou revolta entre a bancada evangélica do Congresso Nacional.

O grupo de parlamentares soltou uma nota nesta sexta-feira (24) em que acusa o magistrado de “perseguição ideológica” e afirma que a decisão é “claramente orientada por ideologia declaradamente anticristã”.

Barroso tem acumulado atritos com Jair Bolsonaro e agora entrou na mira da bancada religiosa, que é ligada ao presidente.

​Em julho de 2020, o ministro, que é relator da ação que trata da proteção de indígenas contra a Covid-19, já havia vetado o ingresso de terceiros em áreas indígenas isoladas e determinado a instalação de barreiras sanitárias. O plenário da corte confirmou a decisão.

Indígenas lendo bíblia – Foto: Reprodução Facebook

Agora, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e o PT pediram para o magistrado esclarecer a abrangência da ordem judicial e determinar o veto à entrada e também à permanência de missões religiosas nesses locais.

Barroso deferiu parcialmente o pedido: ele vetou a entrada, mas autorizou a permanência dos religiosos que já estão nas aldeias.

“Apenas para que não haja dúvida sobre o alcance da cautelar já proferida e em vigor há mais de um ano, explicito que ela impede o ingresso em terras de povos indígenas isolados e de recente contato de quaisquer terceiros, inclusive de membros integrantes de missões religiosas”, afirmou.

A bancada evangélica, porém, reagiu e disse que o ministro partiu de “premissas equivocadas” e agrediu “frontalmente a liberdade religiosa”.

Segundo os parlamentares, a decisão tem o “simples intuito de promover, acintosamente, inadmissível perseguição ideológica e religiosa aos missionários cristão”.

“A Frente Parlamentar Evangélica, não se furtando ao seu papel institucional de defesa inabalável da Constituição, especialmente da liberdade religiosa, da separação de poderes e dos valores que representam, vem denunciar e repudiar a referida decisão”, diz a nota.

Bancada evangélica – Foto: Divulgação

O motivo da decisão

Segundo a Articulação dos Povos Indígenas (Apib), 59.319 indígenas, de 163 povos, foram infectados e deste total, 1.208 morreram de covid-19 desde o início da pandemia até esta sexta-feira (24) entre os cerca de 1,3 milhão de indígenas brasileiros. O Ministério da Saúde fala em 53.457 infectados e 812 mortes, conforme boletim atualizado pelo MS nesta sexta.

O documento, entre várias informações de irregularidades cometidas contra os indígenas, diz que no entorno de Santo Antônio do Içá, no Alto Solimões, no Amazonas, pastores evangélicos espalham mentiras entre integrantes do povo Kokama. O requerimento cita as palavras ditas aos indígenas: “que o imunizante os transformaria em animais, homossexuais ou os mataria” e que “neles seria implantado um chip que carregaria a ‘marca da Besta’”.

Milena Kokama (63), vice-presidente da Federação Indígena do Povo Kokama, confirma as informações. A líder indígena, em entrevista ao portal UOL, fala que a estratégia é usada “em todo o estado do Amazonas”:

“Eles primeiro se aproximam da liderança da aldeia, se fingem de amigos e daqui a pouco casam com a filha da liderança: pronto, eles entram na aldeia e já constroem uma igreja. Eles falam que a vacina não é coisa de Deus, que já vem contaminada da China e que Deus vai proteger quem não tomar.”

Milena Kokama, líder do povo Kokama – Foto: Divulgação

Indígenas atiraram flechas em vacinadores

O requerimento diz que em 2 de fevereiro, um helicóptero da Força Aérea Brasileira (FAB) com vários agentes de saúde e doses de vacina foi cercado por homens e mulheres empunhando arcos e flechas às margens do rio Purus (sul do Amazonas), na terra indígena dos Jamamadis.

De acordo com o documento, os indígenas disseram que não receberiam o imunizante enquanto um missionário americano não fosse liberado para entrar na região e “os orientasse sobre a vacina”.

Segundo o documento, eles se referiam a Steve Campbell e sua esposa, ambos da Greene Baptist Church. Steve foi expulso da região em dezembro de 2018 pela Funai, por entrar ilegalmente nas terras da etnia Hi-Merimã, que vive isolada e é vizinha dos Jamamadis.

Campbell afirmou à Funai que precisou entrar em território Hi-Merimã como única maneira de acessar os Jamamadis, a quem estaria ensinando a usar GPS.

Este é um dos casos que motivou a Articulação dos Povos Indígenas e o PT à entrar no STF com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) para impedir a entrada de religiosos em terras onde tem indígenas isolados.

Steve e Robin Campbell, casal de pastores evangélicos norte-americanos entre os Jamamadi – Foto: Divulgação

As mentiras dos pastores evangélicos brasileiros

O relatório contido no requerimento afirma que nas comunidades próximas ao rio Içá, afluente do Amazonas, “pastores teriam se dirigido ao município em tentativa de impedir que as vacinas chegassem na comunidade”.

Os responsáveis por isso, segundo o documento, seriam da Igreja Mundial do Poder de Deus, liderada por Valdemiro Santiago, e da Igreja Internacional da Graça de Deus, do pastor R.R. Soares. As congregações não responderam aos questionamentos feitos por e-mail pelo portal UOL.

Valdemiro Santiago e Jair Bolsonaro – Foto: Divulgação

De acordo com a União dos Povos Indígenas da região, em relato no documento, na maior concentração de povos isolados do mundo, no Vale do Javari (oeste do Amazonas), “aldeias já disseram à Sesai [Secretaria Especial de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde] que não irão aceitar a vacina”,

Beto Marubo, representante da entidade afirma que apenas as comunidades vinculadas a grupos evangélicos seriam resistentes à imunização. “Na comunicação que eles fazem por rádio, que todas as aldeias escutam, eles dizem que a vacina foi fabricada muito rápido para os indígenas virarem cobaia”, diz .

Beto Marubo – Foto: Igor Tripolli

Milena Kokama diz que, para chegar ao Alto Solimões, onde vive seu povo, são cinco dias de barco. Não tem rua nem carro. “As informações chegam aqui distorcidas, perfeito para esses pastores”, diz.

De acordo com o requerimento entregue à CPI, em outra parte da Amazônia Legal, no Maranhão, na Terra Indígena Arariboia, pastores evangélicos da igreja Assembleia de Deus teriam usado áudios e vídeos pelo celular, sistema de rádio das aldeias e cultos presenciais para convencer os indígenas “a não se vacinarem”.

Procurada por email e telefone, a igreja também não respondeu.

Trecho de requerimento entregue à CPI da Covid cita:

“Tem pregação feita por pastores de que a vacina vem junto com um chip, que tem o número da Besta, que quem toma a vacina vira jacaré.”

A mesma situação também teria ocorrido em aldeias de Itacoatira (Amazonas), Xingu (Mato Grosso) e Rondônia, segundo a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira.

Milena Kokama, líder do povo Kokama, disse:

“Não acredito nesse Deus que eles falam que quer ver sua criação morrer. Como se Ele não quisesse que eu nascesse indígena. Então por que Ele me fez indígena? Já nasci condenada a morrer de covid? Deus já está atendendo nossas orações ao nos dar a vacina.”

 

  • Carlos Roberto de Souza Marques disse:

    Isso mesmo.. O genocídio dos índios começou com essa barbaridade. Índio não precisa de religião. Ele já as tem.