Meio Ambiente

A cheia histórica do Rio Negro e a memória das enchentes amazônicas

A cheia dos rios amazônicos, até a semana passada, já havia causado um prejuízo de R$ 201,6 milhões a produtores rurais de 26 cidades do interior.

Liebe Schmidt

sexta-feira, 04/06/2021 - 01:00 • Atualizado 05/06/2021 - 03:21
A cheia histórica do Rio Negro e a memória das enchentes amazônicas
Cheia do Rio Negro em Manaus - Foto: Alberto Cesar Araujo\Amazônia Real

O Rio Negro é o maior afluente da margem esquerda do Rio Amazonas e é o sétimo maior rio do mundo em volume de água. Nesta semana, a cidade de Manaus, em parte banhada por esse rio, vem sofrendo com a cheia desse afluente, registrando a maior marca desde 1902, quando o nível do rio passou a ser monitorado pelas autoridades. O Rio Negro chegou à cota de 29,98 metros, ultrapassando em 1 centímetro o nível recorde registrado em 2012, quando chegou a 29,97 metros em Manaus.

Segundo a Defesa Civil Estadual, já foram construídos mais de 9 mil metros de passarelas – as chamadas marombas – para auxiliar a população a transitar pelas ruas alagadas. Ao menos 24 mil manauaras, espalhados por 17 bairros da cidade, já foram atingidos diretamente pela cheia histórica do Rio Negro.

No Centro Histórico de Manaus, as principais ruas ficaram alagadas. Na Praça do Relógio, nas proximidades da alfândega, às margens do Rio Negro, o prédio do órgão foi invadido pelas águas e parcialmente interditado pelo Corpo de Bombeiros. Ao menos 4 mil famílias foram desalojadas pelo avanço do rio.

Cheia do Rio Negro – Foto: Agência Reuters

O nível do Rio Amazonas também preocupa. Em Itacoatiara, a lâmina d’água voltou a subir após quase uma semana apresentando estabilidade. Na cidade, o rio apresentou marca de 15,20 metros, acima da cota de transbordamento, segundo informou a Defesa Civil Estadual. A viagem pela BR-319, entre Porto Velho (RO) e Manaus (AM) já está comprometida, após a rodovia apresentar pontos de alagamento.

Leia mais sobre a Amazônia

Segundo informações do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (Idam), até a semana passada a cheia dos rios amazônicos já havia causado um prejuízo de R$ 201,6 milhões a produtores rurais de 26 cidades do interior. Mas, em todo o Estado, 56 municípios sofrem de alguma forma com o aumento atípico no nível de água dos rios. Em março, o Governo do Amazonas lançou a Operação Enchente, mas com o avanço incomum dos rios, a estrutura preparada não foi suficiente.

O governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), anunciou um aporte de R$ 80 milhões, por meio de parceria com a prefeitura de Manaus, para socorrer vítimas da enchente e recuperação da infraestrutura da cidade. Inicialmente, serão liberados R$ 30 milhões para amenizar os transtornos causados pela cheia. Dentro desse aporte financeiro, o governador garantiu o pagamento do Auxílio Estadual Enchente, no valor de R$ 300, pagos em parcela única aos atingidos pela enchente.

Qual o motivo da cheia do Rio Negro?

As cheias dos rios amazônicos são causadas pelo fenômeno climático conhecido como La Niña, que provoca o resfriamento da temperatura das águas do Oceano Pacífico, ocasionando o aumento das chuvas em todas as bacias que drenam para essa região, como a bacia do Negro, do Solimões e todos os seus afluentes (Purus, Juruá, Japurá, Jutaí e etc), incluindo suas áreas externas ao Brasil, na Colômbia, Peru e Equador. A Bacia Hidrográfica do Amazonas é a maior bacia hidrográfica do mundo.

Confira as maiores cheias nas capitais da região Norte

Cheia do Rio Madeira, em Porto Velho (RO)

Em 30 de março de 2014, as águas do Rio Madeira chegaram a 19,74 metros em Porto Velho, capital de Rondônia, e afetaram cerca de 30 mil pessoas no Estado, segundo a Defesa Civil. No Baixo Madeira, muitos distritos de Porto Velho foram inundados e milhares de pessoas abandonaram suas casas. O distrito São Carlos foi 100% atingido e várias famílias passaram a viver em flutuantes. Essa foi a maior cheia desde 1997 , consequência do volume de chuvas acima da média nas nascentes do rio Madeira, que ficam na Bolívia e no Peru. A enchente também afetou os municípios de Guajará-Mirim e Nova Mamoré.

Cheia histórica do Rio Madeira em 2014 – Foto: Sérgio Vale\Secom AC

Cheia do Rio Acre, em Rio Branco (AC)

Maior cheia em 132 anos, a enchente do Rio Acre chegou à marca de 18,34 metros na capital Rio Branco, município do Acre, em 05 de março de 2015. A cheia atingiu mais de 53 bairros da capital acreana e afetou cerca de 83 mil pessoas diretamente. O índice mais alto atingido pelo Rio Acre até então era de 17,66 metros, fenômeno ocorrido em 1997.

Cheia do Rio Acre – Foto: Alberto Cesar Araujo\Amazônia Real

Cheia do Rio Branco, em Boa Vista (RR)

Em junho de 2011, o Rio Branco, em Boa Vista, atingia a marca de 10,02 metros, o maior nível registrado em 35 anos de medição. Praticamente todos os municípios de Roraima entraram em situação de emergência por conta das fortes chuvas. Na capital, foram mais de 600 famílias diretamente afetadas pela cheia atendidas pela Defesa Civil municipal.

Cheia do Rio Branco em Roraima – Foto: Yolanda Simone\Amazônia Real