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Sargento preso por traficar 39 kg de cocaína recebe quase R$ 10 mil por mês da FAB

O sargento Manoel Silva Rodrigues dava apoio à comitiva de Jair Bolsonaro quando foi preso em 2019 na Espanha.

Por Redação Rondônia Já

sábado, 25/09/2021 - 14:07 • Atualizado 26/09/2021 - 22:56
Sargento preso por traficar 39 kg de cocaína recebe quase R$ 10 mil por mês da FAB
Sargento Manoel Silva Rodrigues - Foto: Reprodução redes sociais

Mesmo preso há mais de dois anos na Espanha, o segundo-sargento Manoel Silva Rodrigues ainda recebe normalmente o soldo como militar da ativa da Força Aérea Brasileira (FAB).

Ele foi detido em junho de 2019, transportando 39 kg de cocaína na bagagem em um dos aviões da FAB que dava apoio à comitiva do presidente Jair Bolsonaro.

O militar da Força Aérea foi condenado a seis anos de prisão pelo Superior Tribunal da Andaluzia, na Espanha, mas, mesmo com a condenação, Rodrigues não foi expulso da FAB e, como militar da ativa no Brasil, é renumerado com um salário mensal na faixa dos 7.000 reais brutos.

Segundo informações do Portal da Transparência, ele recebeu em junho deste ano – quando completou dois anos da prisão – R$ 9.975 líquidos. O salário foi acrescido com uma gratificação natalina de 3.000 reais.

De junho de 2019 até agosto de 2021, ele ganhou pelo menos R$ 180 mil dos cofres públicos.

O jornal O Globo, que fez o levantamento, apurou com a Força Aérea Brasileira que o militar só será expulso e terá os honorários anulados quando houver uma condenação definitiva contra ele, de acordo com o Estatuto dos Militares. A nota enviada pelo Centro de Comunicação Social da Aeronáutica diz o seguinte:

“A exclusão do militar a bem da disciplina só será aplicada ao militar após ter sido condenado à pena restritiva de liberdade individual a 2 anos, em sentença transitada em julgada, conforme determina o Estatuto dos Militares (Lei 6880)”

Juristas consultados pela reportagem dizem que não há nenhuma irregularidade no fato de o militar continuar recebendo renumeração, mesmo que ele esteja afastado da função por razões óbvias.

– Antes do trânsito em julgado, nenhuma condenação ou pena pode ser antecipada. É uma norma constitucional e processual, que faz parte do nosso cenário jurídico. É a garantia do princípio da presunção de inocência – diz o advogado criminalista Daniel Gerber.

Conforme o Código Penal, a sentença no exterior ainda precisa ser confirmada em outro julgamento no Brasil, o que não aconteceu ainda no caso do sargento Rodrigues.

A defesa do militar não foi localizada

Ainda em nota, a FAB fez questão de afirmar que o Inquérito Policial-Militar aberto contra ele foi “concluído dentro do prazo” e que a ação penal ainda está “em curso”:

“A Força Aérea Brasileira reitera que atua para coibir irregularidades e que repudia condutas que não representam os valores, a dedicação e o trabalho do efetivo em prol do cumprimento de sua missão Institucional”.

Apreensão de 39 quilos de cocaína em avião da FAB na Sevilha – Foto: Divulgação Polícia da Espanha

A prisão na Espanha

Em junho de 2019, o segundo-sargento da Aeronáutica Manoel Silva Rodrigues, de 38 anos, foi preso no aeroporto em Sevilha por portar 39 quilos de cocaína em sua bagagem. Ele viajara com a droga em um avião da FAB a serviço de uma missão presidencial – a viagem do presidente Jair Bolsonaro para o Japão.

O avião dava suporte à missão presidencial, e fazia uma escala na Espanha. Rodrigues atuava como comissário de bordo em voos oficiais da Aeronáutica. Como segundo-sargento, na época, ele recebia um salário bruto de R$ 7,2 mil.

No ano passado, o militar foi condenado por um tribunal de Sevilha. Inicialmente, a pena pedida pelo Ministério Público era de oito anos de prisão, além de uma multa de quatro milhões de euros. Mas, em acordo com a promotoria espanhola, aceitou uma sentença de seis anos e um dia de prisão, além de uma multa de dois milhões de euros (cerca de R$ 9,5 milhões). Na oportunidade, ele confessou o crime e afirmou estar “profundamente arrependido”.

Foi apurado, no inquérito policial, que o militar traficou cocaína em aviões da FAB pelo menos sete vezes anteriores à viagem no qual foi preso.

Avião da FAB – Foto: Divulgação FAB

Quadrilha militar de tráfico

Na última quarta-feira (22), a Polícia Federal cumpriu três mandados de busca e apreensão no Distrito Federal em um desdobramento da Operação Quinta Coluna, que foi instaurada após a prisão do sargento da Aeronáutica. Os investigadores apuram um esquema de tráfico internacional de drogas usando aviões militares da FAB para transportar cocaína à Europa.

Na segunda etapa da operação, em 18 de março deste ano, quatro suspeitos de participar do esquema foram detidos . Policiais federais prenderam três militares e a mulher de Rodrigues:

  • Tenente-coronel Alexandre Augusto Piovesan;
  • Sargento Márcio Gonçalves de Almeida;
  • Sargento Jorge Luis da Cruz Silva;
  • Wikelaine Nonato Rodrigues.

A investida anterior contra o esquema ocorreu no dia 2 de fevereiro, quando a Polícia Federal deflagrou a primeira fase da operação Quinta Coluna. Na ocasião, os agentes cumpriram 15 mandados de busca e apreensão e duas medidas cautelares que impedem os investigados de deixar a capital.

Com informações de O Globo e G1 nacional