Opinião

Considerações de uma brasileira na fila da vacina

Apesar de se emocionar todos os dias com o aniquilamento diário de famílias e a morte de mais de 420 mil brasileiros, eu sou grata. Grata à ciência e a todas as pessoas que fazem das tripas coração para salvar vidas.

Por Mone Winter

segunda-feira, 10/05/2021 - 07:00 • Atualizado 16/05/2021 - 17:33
Considerações de uma brasileira na fila da vacina
Vacinação contra Coronavírus - Foto: Marcelo Winter

Em 09.05.2021 recebi minha primeira dose de vacina contra a Covid-19. Fui selecionada pelo aplicativo SASI, parcialmente desenvolvido pela Prefeitura de Porto Velho, durante a campanha de vacinação do grupo das comorbidades, grávidas e puérperas, em seu segundo dia. Uma benção esperada pelos brasileiros, inclusive por muitos negacionistas que, à revelia de seus pares, preferem sobreviver do que ter razão.  

O aplicativo, adaptado para as necessidades da cidade, não funcionou para o agendamento. Recebi a tão esperada notícia por chamada de voz de WhatsApp e email. O horário agendado era às 09:40hs e a funcionária da SEMUSA ressaltou a importância da pontualidade para não causar aglomeração.  

Mas, como é do cotidiano atual dos brasileiros, a balbúrdia se formou rapidamente. Pessoas andando no meio da Avenida Mamoré, disputando passagem com carros e mato que tomou conta das calçadas, formaram filas e filas ziguezagueantes dentro do Campus II da Uniron.  

Não havia informação facilmente disponível e nem voluntários ou funcionários em número suficiente para dá-las ou organizar a multidão. A maioria se informava com o seu vizinho da frente e ouvia-se, assim, as inúmeras conversas. Ali estavam reunidas pessoas agendadas no grupo das comorbidades, outras não agendadas, indivíduos que nem sequer haviam instalado o SASI, idosos acima de 60 anos que não conseguiram se agendar, pessoas no grupo das faixas etárias de 70 e 80 anos, as grávidas, as puérperas, enfim, um salve-se quem puder. E o sol queimando nossa cara. 

Aglomeração em vacinação contra Covid-19 – Foto: Marcelo Winter

 

Os ânimos estavam exaltados. Sentia-se o medo e a tensão no ar. Afinal, ouviu-se vários rumores que a vacina havia acabado no meio da fila, em outras datas. Mas também ali percebi quanto o brasileiro está anestesiado e conformado com a situação do País. Pessoas com tolerância zero para qualquer crítica aos governantes e total desconfiança com a mídia informativa. Receber a aplicação do imunizante, uma obrigação de qualquer país, depois de 11 tentativas de negociação de vendas irresponsavelmente recusadas, estava sendo considerada, ali, um favor dos deuses para os simples mortais. Uma dádiva que deveria ser reverenciada de joelhos a quem proporcionou a salvação. Sim, o brasileiro é um resiliente. Tá ruim, mas tá bom, como diz o dito popular. 

Chegando na entrada do prédio central, as pessoas se depararam com a pior situação. Somente três funcionários encarregados da informação, do acesso e da organização da fila geral, da fila das puérperas e grávidas, da entrada de cadeirantes, do acesso dos portadores de Síndrome de Down e idosos mais frágeis. Ali os ‘fura fila’ deitaram e rolaram. Pessoas que não queriam se submeter ao sol e os não agendados aproveitaram o tumulto.  Aproveitaram também a desordem na fila da senha. Os e-mails de confirmação eram vistos apenas de relance e nenhum dado era confirmado.  

Desorganização também na sala da vacina. Quem conseguiu chegar até lá foi vacinado. Não havia um sistema informatizado ou sequer listas de agendados. Não solicitaram os laudos médicos ou exames para comprovação da comorbidade. Apenas o cartão do SUS, a identidade e a informação de qual comorbidade estava em questão. 

Bem, para minha sorte e de todos os presentes, havia fartura de vacina. Naquele dia, pelo menos. Talvez meu leitor esteja pensando: essa mulher é ingrata e não reconhece os esforços do País. Não, eu sou grata.  Apesar de ter tido febre de quase 39º após a aplicação de uma vacina (Astra Zêneca/Oxford) que está sendo rejeitada em boa parte do mundo e por isso, mais econômica, eu sou grata. Apesar de saber que existem pessoas já vacinadas duas vezes e que se encontram entubadas, eu sou grata. Apesar de se emocionar todos os dias com o aniquilamento diário de famílias e a morte de mais de 420 mil brasileiros, eu sou grata. Grata à ciência e a todas as pessoas que fazem das tripas coração para salvar vidas. E só.  Vacinação é direito nosso e obrigação dos governantes.

Aplicação de vacina da Astra Zêneca – Foto: Marcelo Winter