Opinião

Amazônia: a invenção de uma região

Estréia da Coluna Amazônias: caminhos descaminhos, escrita pelo Professor da UNIR e Doutor em História Marco Antônio Teixeira

Coluna do Marco Teixeira

terça-feira, 18/05/2021 - 18:55
Amazônia: a invenção de uma região
Professor Marco Antonio Teixeira

Em primeiro lugar, ao iniciar esta coluna, preciso me apresentar e falar da importância que é para um pesquisador, contar com a liberdade de escrever e a possibilidade de publicar o que escreveu. Sendo assim, inauguro aqui, no rondoniaja.com, do ilustre jornalista Marcelo Winter, a coluna semanal “AMAZÔNIAS: CAMINHOS DESCAMINHOS”. Trata-se de um generoso espaço,  onde dividirei com os leitores as pesquisas e leituras que tenho feito sobre a Amazônia, em geral e sobre Rondônia, em específico. Será uma coluna híbrida, pois irá trabalhar com a pesquisa acadêmica em uma linguagem jornalística. Interdisciplinar, porque abordaremos temas de diversas áreas e, dinâmica em sua essência, para não cansar o leitor.

Como nosso primeiro tema, escolhi para título: “AMAZÔNIA:  A INVENÇÃO DE UMA REGIÃO”. Quem de nós, amazônidas, de nascimento ou por migração e estabelecimento na região, já parou para pensarmos que significa a Amazônia? É, simplesmente uma divisão geográfica? É mais do que apenas a divisão política e geográfica? O que ela abrange e no que ela difere de outras regiões que compõem o Brasil e a América do Sul?

Pensando nessas questões, tentaremos entender a Amazônia, a partir de uma visão plural: as Amazônias. E, ao mesmo  tempo em que tentamos entender a região, procuraremos conhecer seus povos, seus meios naturais, suas histórias, seus modelos de desenvolvimento social e econômico, suas diversidades culturais, sociais, étnicas e ambientais e as políticas empreitadas a respeito da região.

Buscaremos, sempre, uma visão científica e acadêmica, partidariamente independente, mas nunca despolitizada, pois tudo o que fazemos e o modo como vivemos, implica em uma postura politizada.  Ao final de cada texto, recomendaremos uma ou mais leituras, como fonte e complementação da abordagem feita pelo texto. Nosso objetivo, com esta coluna, é de difundir conhecimentos sobre a região e propor debates com os leitores acerca de cada tema. Como método, utilizaremos o texto escrito para facilitar o conhecimento e debate.

Feitas essas considerações, quero agradecer ao amigo, jornalista Marcelo Winter, por me convidar a ocupar tão honroso espaço. Gostaria de ter começado antes, mas as sequelas do Covid 19, contraído em janeiro e prolongado até fevereiro, ainda me cobram um preço alto por ter escapado de toda forma, como diz o ditado, “comer e coçar, é só começar”. O mesmo ditado vale para escrever, e creio que ao começar essa coluna, os textos fluirão, ansiosos para virem à luz. Agradeço aos leitores, antecipadamente, e, certamente, teremos muitos pontos em que concordaremos e muitos mais em que discordaremos, para isso existe o debate e a mediação. Os temas serão tratados por blocos e nesse primeiro conjunto, nossa pretensão é discutir os conceitos que definem a Amazônia como uma região, especificamente delimitada, povoada e com meio natural e economia diferenciada.

Uma última observação fica para o fato de que datas especiais, merecerão textos à parte e, certamente, uma dessas datas seria o 13 de maio, Dia da Abolição da Escravatura. Trataremos disso na coluna que estará online em 25 de maio, dia da África e comemoraremos a Abolição da Escravatura no Brasil e na Amazônia, onde ela foi precoce, não como uma dádiva duvidosa da monarquia brasileira, que a retardou, ao limite e, chegou a calcular que ela se completaria, apenas em 1922, numa clara disposição de não entrar em atritos com a elite escravista do Brasil. Mas essas são discussões que virão depois. Vamos, pois ao tema de hoje de nossa coluna: “AMAZÔNIA:  A INVENÇÃO DE UMA REGIÃO”.

A Amazônia, como a conhecemos e imaginamos, é uma região inventada pelos colonizadores e invasores ibéricos, ao longo de 04 séculos de colonização. Historicamente, sabia-se de sua existência, ao menos um ano antes da chegada de Cabral à Bahia Cabrália, em 22 de abril de 1500, data que, longe de marcar, qualquer descobrimento, marca, o apossamento de um território, de proporções continentais, pelo Estado Absolutista de Portugal, um pequeno país, de vanguarda, na nascente Europa Moderna. Cabral, certamente já sabia o que iria encontrar. Lembremos que a “descoberta da América” por Cristóvão Colombo já havia ocorrido há 08 anos, em 1492 e que, desde então, Portugal esforçava-se para “não perder a corrida navegadora”.

Entendendo a Amazônia partir de seu principal elemento comum, a bacia hidrográfica, a maior do mundo, percebemos que apenas metade dela situa-se em territórios do Brasil atual. Vejamos: olhando pela dimensão continental, a Amazônia é formada pelos seguintes países. Equador, Venezuela, Colômbia,  Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Peru, Bolívia e Brasil. Dentro do  Brasil, abrange todos os estados da Região Norte: Rondônia, Tocantins, Acre, Roraima, Amazonas, Pará e Amapá. Mas a Pan Amazônia forma-se com a inclusão de estados que não estão, politicamente localizados nessa região. Mato Grosso e Goiás localizam-se no Centro Oeste. Maranhão no Nordeste. São paisagens, povos, relevo, climas, economias, culturas e línguas diferentes. Nada existe em comum, apenas a bacia hidrográfica. Então porque não falarmos em Amazônias?

As primeiras referência ao nome Amazonas e Amazônia ocorrem nos séculos XVI e XVIII, com as expedições de Orellana e Pizarro e as crônicas do padre Gaspar de Carvajal; Cristobal Acuña, Alexandre Rojas (que estiveram nas expedições de Lope de Aguirre, Pedro de Ursua, Fernando Gusman, Juan Maldonado, Martin Proveda e Pedro Teixeira).

A identificação da Amazônia como região específica viria a ser consolidada nas grandes expedições cientificas dos  séculos XVIII e XIX, notadamente a de Charles Marie de La Condamine e a de Alexandre Rodrigues Ferreira e a de Richard Spruce.

Descoberta ou achada em 1499, pelo navegador  espanhol Vicente Yanez  Pinzón, que chegou à foz do grande rio, mais tarde chamado Maranhon e, posteriormente  Amazonas, Pinzón, entre o encanto e o espanto chamou ao rio de Santa Maria del Mar Dulce. Uma  clara expressão de seu espanto: “Santa Maria! O  Mar é doce.” Certamente para um navegador do século XV a obtenção de água doce era uma necessidade prioritária, uma  vez que as reservas embarcadas nas caravelas eram, valiosamente, limitadas e significavam a vida ou a morte de toda a tripulação no mar-oceano.

Quando se aproximou da foz do Amazonas, na baia de Guajará, nas imediações do que  hoje é Belém do Pará, Pizón constatou que por uma extensão de quase 300 km se navegava por um “oceano” de água doce. A importância dessa descoberta, em si, já valia todo o esforço navegador. Estava-se, claramente, diante de um milagre, a água do mar era doce. Isso significava que não era necessário racionar porções da bebida, ou contar com chuvas oceânicas que poderiam não chegar e que, ao chegar, muitas vezes,  vinham de forma tão furiosa, que afundavam as embarcações em meio a  tempestades  tropicais.

Assim, em 1499, Pizón navegou pela costa do Brasil, da baia de Guajará até o Nordeste, nas imediações de Pernambuco, onde chegou ao Cabo de Santo Agostinho, perto da atual  cidade de Recife, onde as correntes marinhas mudam seu rumo. Para os britânicos, e espanhóis, ele é considerado, o verdadeiro “descobridor” do Brasil, antecedendo, em meses, a chegada de Cabral.

A Amazônia é uma metáfora do Novo Mundo, do outro mundo, do lugar dos deslumbramentos, exotismos, maravilhas. Mesmo quando a realidade é muito outra, quando se verifica que os fatos contradizem a imaginação, mesmo nesses casos parece reiterar-se a busca do paraíso. Ocorre que a Amazônia tornou-se o emblema de algum lugar, onde se esconde uma utopia do Planeta Terra.

A diversidade étnica e cultural para além do vasto contingente dos povos indígenas foi constituída por  europeus e seus descendentes, negros africanos, negros caribenhos, asiáticos diversos, populações etnicamente diferenciadas (ribeirinhos, caboclos, tapuios e outros).

O povoamento recente ocorreu em levas migratórias derivadas das oportunidades econômicas. Miscigenação étnica iniciada pelos exploradores e missionários católicos ainda não pode ser considerada concluída, uma vez que a ocupação das fronteiras amazônicas ainda está em franco processo de expansão.

A longa história do povoamento humano na Amazônia começa praticamente junto com a formação da floresta que conhecemos hoje. Muitos autores consideram que apesar de ainda não terem sido encontrados vestígios concretos da presença humana na Amazônia durante o período compreendido entre para além de 12.000 a.p. (antes do presente) foi, provavelmente, neste período que os primeiros grupos humanos provenientes da Ásia chegaram de sua longa migração até a América do Sul.

Eram grupos nômades de caçadores-coletores que perseguiam as grandes manadas de animais. Esses grupos deram origem às comunidades dos atuais povos indígenas que conhecemos em toda a Amazônia. Tais populações se estabeleceram preferencialmente nas várzeas dos rios, que possuíam abundância de água, pescado e  permitiram uma prática agrícola mais fácil e produtiva.

Mudanças climáticas e ambientais, ocorridas entre 7.000 e 6.000 anos, levaram ao aumento da temperatura e da umidade do planeta, fazendo com que as florestas se expandissem.

Começava então uma segunda fase do povoamento humano da Amazônia, na qual as populações passaram a contar com recursos alimentares mais diversificados e novas formas de organização social surgiram.

Essas novas práticas socioculturais, por volta de 5.000 anos atrás, deram origem à chamada Cultura de Floresta Tropical, caracterizada por grupos que praticavam uma agricultura ainda incipiente, complementada pela caça, pesca e coleta de frutos e sementes da floresta.

A partir dessa nova organização social, os grupos pré-históricos amazônicos passaram também a fabricar cerâmica e a ocupar alguns locais por períodos mais prolongados. Com isso, deixaram grandes sítios arqueológicos que testemunham seu florescimento por toda a Amazônia.

A partir do surgimento da Cultura de Floresta Tropical, a ocupação humana da Amazônia alcançou o estágio de alta diversificação que os europeus encontraram ao começar a exploração da grande floresta.

A terceira fase da ocupação humana da Amazônia corresponde ao povoamento europeu da região. O lendário e mítico, rico reino do Eldorado. Inicialmente, as duas superpotências da época, Portugal e Espanha, obedeciam à divisão territorial estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas.

Por esse acordo, grande parte do que hoje conhecemos como Amazônia brasileira pertencia aos espanhóis. Somente no final da primeira metade do século XVI, no entanto, os espanhóis deram início ao reconhecimento da região.

A primeira expedição européia ao grande rio que corta a região foi realizada entre 1540 e 1542 pelo destemido navegador espanhol Francisco de Orellana. O escrivão dessa expedição, Gaspar de Carvajal, fez os primeiros registros escritos sobre a floresta amazônica e sua diversidade de ambientes e culturas. Esse será tema de nossa próxima coluna. , que dará continuidade ao nosso propósito de estudar a invenção das Amazônias.

Marco Antônio Domingues Teixeira

Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Rondônia

 

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Para consulta e leitura sobre este tema:

• CHARTIER, R. O mundo como representação. Estudos Avançados. Vol. 5, no. 11. São Paulo: jan. abril de 1991. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.
• GERBI, Antonello . O novo mundo. História de uma polêmica , 1750-1900. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.
• GONDIM, Neide. A invenção da Amazônia. Manaus:Valer, 2007.
• LIMA, Araújo. A Amazônia, a terra e o homem. Col. Brasiliana, vol. 104, São Paulo, Cia Editora Nacional, 1975.
• Loureiro, João de Jesus Paes. Cultura amazônica, uma poética do imaginário. Belém, CEJUP, 1995.