Opinião

Em tempos de insegurança alimentar, a agricultura familiar tem seu valor

Estréia da coluna semanal do Marcelo Lucian Ferronato, biólogo da Oscip ECOPORÉ

Marcelo Lucian Ferronato

domingo, 23/05/2021 - 17:12
Em tempos de insegurança alimentar, a agricultura familiar tem seu valor
Biólogo Marcelo Lucian Ferronato - Foto: redes sociais

Se você, que está lendo nossa coluna de hoje, tem a garantia de que fará alimentação regular diariamente, sinta-se privilegiado, pois você faz parte de um grupo de 4 a cada 10 brasileiros e 6 a cada 10 rondonienses que estão em situação de segurança alimentar.

Se você que nos lê, precisa ou precisou abrir mão da qualidade de alimentos para não comprometer a quantidade consumida, se sofre com a falta de alimentos, mas não passa fome, integra o grupo de famílias que estão em situação de insegurança alimentar leve a moderada. Agora se você não tem garantias de que irá se alimentar diariamente, está em situação de insegurança alimentar grave, junto a outros 14 milhões de brasileiros que vivem o drama de não ter o que comer.

O número de pessoas em situação de insegurança alimentar grave vem crescendo no país. A pandemia tem agravado ainda mais o número de pessoas com fome. O percentual atual já é similar ao de 2004, quando era de 8%, mas que havia sido reduzido para 3,6% em 2013, quando chegamos ao menor índice.

Apesar da região norte registrar os maiores índices de pessoas com insegurança alimentar grave (10%), Rondônia se destaca com o maior percentual de pessoas em situação de segurança alimentar: 60%. Um dos melhores índices do país. Fato que não impediu que entre 2016 e 2020 em média 34 pessoas morressem por ano, desnutridas.

Quando se fala em fome, devemos considerar outra questão importantíssima, a soberania alimentar… Essa soberania está relacionado ao direito de todos ao acesso a alimentos saudáveis. Basicamente é a garantia à alimentação para toda a população, principalmente com base na pequena e média produção agrícola, a qual emprega mais de 10 milhões de pessoas no Brasil. A soberania alimentar valoriza a produção e o mercado locais, a autossuficiência, a sustentabilidade e a autonomia das comunidades. Logo, soberania e segurança alimentar andam de mãos dadas, geram emprego, renda, qualidade de vida e obviamente, matam a fome de quem precisa.

Agricultura familiar – Foto: Brasil de Fato

Quando se fala em fome, nos referimos também a capacidade que uma nação tem de compartilhar minimamente sua riqueza, ainda mais quando moramos em uma país que tanto produz e gera riquezas a partir da produção de alimentos. Se se acumulam recordes sobre recordes de produção de soja, milho e outros grãos, por que a fome cresce na mesma proporção? Chega a ser absurdo, com tanta riqueza gerada dizer que 14 milhões de pessoas não tem garantia de que vão se alimentar hoje. A pergunta clássica que sempre perguntam: e o que pode ser feito?

Antes de qualquer atitude, é importante que governos e sociedade reconheçam a fome como uma questão coletiva e real. É fundamental compreender que a extrema pobreza é o ponto de partida dos elementos causadores da fome. E seu enfrentamento deve se dar em frentes simultâneas.
Uma delas, é a priorização de políticas públicas de segurança alimentar e nutricional e àquelas que propiciem renda para os mais pobres.

A outra é de inserir nessas políticas e compreender que para ter soberania alimentar e o alimento chegar a quem mais precisa, inicialmente ele precisa ser produzido. E que parte significativa dessa soberania, provém da agricultura familiar, que produz 81,2% das hortaliças e frutas do país, 70% da produção de mandioca, além de ser responsável por mais da metade da criação de aves, suínos e caprinos, 30% do rebanho bovino e 60% da produção de leite.

Especialmente em Rondônia, um dos estados com maior índice de pessoas com segurança alimentar. Mais de 85% do feijão, mandioca, café, banana e leite provém das quase 100 mil propriedades da agricultura familiar, além de frutas e hortaliças, importantes alimentos para qualidade nutricional no dia a dia de cada um de nós.

Trata-se de uma questão de prioridades, se pretende-se produzir alimentos, os investimentos devem contemplar os arranjos produtivos locais, que envolvam a agricultura familiar e o combate a fome. É da agricultura familiar que sairá o alimento saudável que poderá novamente nos livrar dessa triste realidade, a fome.

 

REFERÊNCIAS:
https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/09/17/fome-volta-a-crescer-no-brasil-e-atinge-103-milhoes-aponta-ibge.ghtml

https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2021/O-aumento-da-fome-no-Brasil-v%C3%A1rias-faces-de-um-mesmo-problema

https://agroemdia.com.br/2020/09/09/embrapa-agricultura-familiar-e-producao-de-alimentos-no-brasil-e-em-rondonia/

Marcelo Lucian Ferronato é biólogo na Oscip Ecoporé, Mestre em Ciências Ambientais pela Unir de Rolim de Moura/RO, Doutor em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente pela Unir, Vice-Presidente do Conselho Regional de Biologia da 6ª, colunista de sustentabilidade na Rádio CBN Amazônia em Porto Velho e Guajará-Mirim, e atua no Lahorta – Laboratório de Heurística de Sistemas Agroalimentares da Amazônia.