Opinião

Entre a lenda das Amazonas e o Regimento das Missões

Neste breve artigo vamos tentar explorar quem são as Amazonas e porque a região em que vivemos recebe esse nome.

Coluna do Marco Teixeira

domingo, 27/06/2021 - 03:19 • Atualizado 03:46
Entre a lenda das Amazonas e o Regimento das Missões
As mitológicas Amazonas durante a Guerra de Tróia

Talvez você já tenha ouvido falar muito sobre a lenda das Amazonas e as imagine como mulheres nativas do vale do rio que toma esse nome e não tenha conhecido outras vertentes da lenda das Amazonas. Neste breve artigo vamos tentar explorar esse assunto. Quem são as Amazonas e porque a região em que vivemos recebe esse nome. Desde a primeira metade do século XVI, os espanhóis que já haviam conquistado os Andes e dominado a maior parte do Império Inca, sonhavam em encontrar riquezas lendárias. Vale lembrar que os navegadores desse tempo buscavam riquezas materiais como especiarias (daí a busca pelo País da Canela) e metais preciosos (o lugar onde tudo era ouro, ou o Eldorado).

Em 1538, Pedro Anzures liderou uma expedição, composta por 300 espanhóis e 4.000 indígenas andinos. A expedição foi um desastre e mais da metade dos espanhóis morreu durante a tentativa de descer os Andes. Em 1541,o governador local, Gonzalo Pizarro organizou uma nova expedição, dessa vez com 220 homens armados, outros 4.000 indígenas andinos, milhares de animais para carga e transporte, 2000 porcos e mais de 2000 cães de caça e guarda.

Como já falamos em outro artigo, originalmente a região não foi especificamente nomeada, mas o enorme rio sim. Primeiramente foi chamado de Santa Maria del Mar Dulce, posteriormente rio Maranhon, ou ainda Grande, rio das Canelas ou rio de Orellana. Dentre outros nomes, ainda é conhecido como Apurimac, Ene, Tambo e Ucayali, quando entra no Brasil, em Tabatinga (AM), é chamado de Solimões e, somente após a confluência com o rio Negro é que passa a se chamar Amazonas. Essa denominação prevalece hoje, e poucos se lembram do detalhe de que somente após confluência com o rio Negro é que o grande Solimões se transforma em Amazonas.

A mudança do nome se deve a um suposto e violento encontro entre as embarcações da expedição espanhola de Francisco Orellana e Gonzalo Pizarro com uma nação de mulheres guerreiras de origem indígena, no ano de 1542. Tal fato seria atestado nos registros de viagem do frei dominicano Gaspar de Carvajal, cronista da expedição, que buscava encontrar o, também lendário, Eldorado ou El Dorado. Ao longo da acidentada descida dos Andes a expedição se dividiu em duas. A bordo do bergantim Vitória, 57 homens armados enfrentariam a forte correnteza do rio, em plena descida do altiplano andino. Orellana ordenou aos “nativos Coto” que integravam o grupo de exploradores, a construção de outra embarcação, o San Pedro e, dessa forma, separando da turma que era comandada por Pizarro, Orellana continuou a descer o grande rio, em busca do “País das Canelas” e do sonhado Eldorado.

A expedição perderia centenas de vidas, ante a adversidade das águas, pântanos e da selva. Ao final, quando os sobreviventes se reencontraram nas ilhas Margaritas, o próprio Orellana morreria, perto do final da expedição, em 1546. Os mosquitos eram o pior dos tormentos, mas a fome foi se transformando num desastre e a expedição terminou por abater os animais que levava para iniciar uma possível colonização e a assassinar indígenas para alimentar os mastins que guardavam o acampamento. Daí, ressalta o historiador Márcio Souza, vem o termo, “atirar aos cães”, ainda hoje muito utilizado. Carvajal registra, incessantemente, a fome e os mosquitos como as grandes adversidades.

Ao separarem-se em dois grupos, coube a Orellana continuar a descida do rio Maranhon ou Grande, cada vez mais volumoso e veloz. O encontro com as populações indígenas era, via de regra, amistoso e possibilitava aos espanhóis reabastecerem suas provisões e continuar a viagem. As narrativas de Frei Gaspar de Carvajal são um valioso documento da viagem e de encontro com numerosas populações indígenas, habitantes das várzeas do grande rio e integram seu diário de viagem, que recebeu o nome de “Relación del nuevo descubrimiento del famoso rio Grande de las Amazonas”. Em janeiro de 1542, Orellana encontrava-se no rio Napo. Em 12 de fevereiro a expedição defrontava-se com o Solimões e os desastres, de toda sorte, sucediam-se. Chegando ao território Omágua/Kambeba, os viajantes foram bem recebidos pelo Principal da aldeia (cacique) Aparia. Aí permaneceram por 3 meses, recompondo a expedição e preparando-se apara dar continuidade à viagem.

Em 3 de junho, os viajantes passaram pela foz do rio Negro, que recebeu esse nome, dado por Orellana, devido à cor de suas águas. É o único rio que mantém, ainda hoje, o nome dado pelo invasor. Conforme haviam sido advertidos por Aparia, após a passagem pela foz do rio Negro, eles entraram num território de povoação numerosa, governado por uma mulher, chamada Amurians. Nessa região próximo à foz do Madeira, foram violentamente atacados por tropas de mulheres guerreiras, descritas por Carvajal, que havia sido ferido na coxa com uma flecha envenenada e, posteriormente em um dos olhos, como mulheres altas e nuas, que lutavam mais violentamente do que qualquer guerreiro. Essas mulheres impuseram pesadas perdas aos espanhóis e Carvajal registrou o relato de um índio capturado que dizia que o território de Aparia era formado por muitas terras e rios habitados somente por mulheres guerreiras, que mantinham relação com homens, apenas para procriarem e ficavam somente com as filhas, abandonando, matando ou entregando os filhos do sexo masculino a seus pais na floresta. Revivia-se assim a antiga lenda grega das mulheres amazonas e sua líder na Guerra de Troia, a rainha Pentesileia.

Amurians e suas guerreiras integram a versão tropical do mito mediterrâneo das mulheres Amazonas. Na verdade, em muitas sociedades matriarcais e matrifocais, mulheres integravam forças militares e comandavam batalhas. O mito grego das Amazonas, descrito na Ilíada apresenta mais uma utopia ao misógino mundo grego, onde mulheres eram, sempre, propriedades dos homens e nunca tomavam grandes iniciativas. Excepcionalmente pode-se citar como contraponto o caso das mulheres espartanas.

O mito brasileiro das Guerreiras Amazonas

O mito brasileiro das Guerreiras Amazonas

A viagem de Orellana foi marcada por conflitos com povos indígenas e os espanhóis os tratavam de forma infame e violenta. A conquista da América Indígena pelos invasores espanhóis é narrada no livro de Frei Bartolemé de Las Casas “Brevíssima Relación de la Destrucción de Las Indias” que integra um conjunto de narrativas e obras que retratam a crueldade do espanhol ante aos povos que dominava, tanto no Novo Mundo, quanto na Europa, onde haviam completado a expulsão dos Mouros da Península Ibérica e haviam invadido a Pensínsula Itálica, com enorme truculência. A esse conjunto de narrativas que apresentavam o espanhol de forma violenta e cruel, dê-se o nome de “La Leyenda Negra”.

A expedição de Orellana foi devastada e poucos sobreviveram ao último confronto com os indígenas que lhes atacavam com flechas embebidas em curare, que é um veneno usado para a caça. Em agosto de 1542 a expedição estava terminada e os últimos sobreviventes só chegariam às ilhas Margaritas em 1546. O tremendo choque com as mulheres guerreiras marcou o imaginário da expedição e nos 300 anos seguintes os europeus continuaram a buscar a legendária nação das mulheres guerreiras. O rio, então chamado rio de Orellana, passou a ser conhecido como o rio das Amazonas e muitos viajantes dedicaram parte de suas vidas a encontrar essa nação feminina.

Atirados aos cães. A violenta conquista da América Hispânica é narrada em um conjunto de obras que integram La Leyenda Negra

AS AMAZONAS NO IMAGINÁRIO EUROPEU

O mito das mulheres guerreiras marcou o imaginário de diversos povos, mas tropas femininas fazem parte da história e podem ser constatadas em diversos documentos. Na mitologia grega, havia nos limites do mundo helênico, já na Ásia Menor, um país das Amazonas, miticamente governado pela rainha Hipólita, que havia recebido um cinturão, símbolo de seu poder, do Deus da Guerra Ares. Coube, de acordo com as narrativas aos heróis gregos Héracles e Teseu, que fizeram prisioneira a amiga de Hipólita, Melanipe. Em troca da sua libertação, Héracles exigiu e obteve a rendição da rainha e a entrega do cinturão dado por Ares. Tratava-se, na verdade, de uma intriga tecida por Hera, a esposa de Zeus, sempre uma inimiga mortal de Héracles. Julgando-se traído e em meio a um motim, Héracles teria matado Hipólita. Em outra versão do mito, Hipólita se casa com Teseu e tem, com ele um filho, Hipólito, rei de Atenas.

Em outra versão do mito grego, Teseu se casa com Antíope e com ela tem um filho chamado Hipólito. Numa terceira versão do mito, Antíope é abandonada por Teseu que se cassa com Fedra. Revoltada, Antíope comanda a invasão da Ática pelas Amazonas e é derrotada.

Por fim na versão de Homero fala-se da presença das Amazonas nos jogos realizados em Troia, em homenagem a Heitor que havia matado o grande parceiro de Aquiles, Pátroclo. Heitor haveria de ser morto em uma vingança, furiosa, de Aquiles. A Ilíada não menciona o nome da Amazona que atuou na Guerra, ao lado dos troianos e que teria sido morta por Aquiles. O nome desta guerreira, Pentesiléia é citado no poema “Aethiops” e, posteriormente, no  poema “Posthomerica”, escrito por Quintus Smyrnaeus, por volta do século III ou IV d.C.  ao ver que havia lutado e matado uma mulher, Aquiles se comoveu e, diante da zombaria de Térsites, o matou a murros, indo purificar-se pela morte de Pentesiléia na Ilha de Lesbos. Em uma outra lenda, Alexandre, o Grande, rei da Macedônia, teria tido uma filha com a rainha amazona Taléstris.

No livro Livro IV: Melpômene, de Heródoto, há citação das Amazonas, que segundo ele viviam na Citia. Já, para Helânico de Lesbos, o significado do termo amazonas era ‘mulheres com um seio só’ (suposta prática atribuída às espartanas que após a menopausa praticariam a mastectomia para melhor manejar o arco e flecha) e eram notáveis assassinas de homens jovens e viris. Por fim, Hipócrates de Cós cita as Amazonas em uma obra a ele atribuída, “Corpus Hippocraticus”. Segundo ele, ainda na infância as meninas amazonas tinham um seio queimado com ferro em brasa. A lenda das Amazonas ainda é citada por Estrabão e Diodoro Siculus.

Historicamente mulheres guerreiras e caçadoras são citadas em Esparta, entre os Citas. A historiadora Edna G. Bay, um exército de mulheres daomeanas reais lutou contra os franceses no século XIX, essas amazonas eram “As mulheres soldados e oficiais do exército de Daomé possuíam escravas, moravam no palácio do rei e eram tão respeitadas e poderosas que, quando andavam pelas ruas, os homens comuns deviam dar um passo atrás para abrir caminho e olhar para o outro lado: não podiam dirigir seu olhar a elas. Usavam uniformes, carregavam bandeiras e cantavam hinos.”
Ao longo dos tempos o imaginário europeu buscou e não encontrou as Amazonas em meio à floresta que passou a ter seu nome. No entanto, essas mulheres, como revela Edna Bay, viveram e lutaram, tiveram direitos equivalentes aos dos homens e eram temidas e respeitadas por eles, só que sua Pátria foi o Daomé.

As Amazonas Negras do Daomé, que lutaram contra a dominação francesa, imposta ao país em 1894

Na região amazônica, padres, exploradores e militares jamais as encontraram. No século XVII, Portugal começa a efetivar a colonização da região, após a viagem de Pedro Teixeira (1638), fundando povoados e entregando as populações indígenas a um novo agente do Estado, as grandes ordens religiosas católicas. A região, tomada dos espanhóis e reconhecida como portuguesa pelo Tratado de Madri, viria a formar o Estado do Maranhão e Grão Pará e sua gestão ficaria a cardo do missionários, regidos por sua vez, pelo Regimento das Missões de 1686.

O Regimento das Missões do Estado do Maranhão e Grão-Pará, decretado pelo rei de Portugal, Dom Pedro II,  em 21 de dezembro de 1686, por meio de 24 parágrafos, concedia o direito de tutela dos indígenas capturados ou descidos aos missionários portugueses. Tal prática levaria a um verdadeiro etnocídio realizado pelas Ordens Carmelita, Franciscana, Capuchinha, Mercedária, Dominicana e Jesuítica e colocaria em lados opostos colonos e religiosos. A disputa pelas almas indígenas passava, antes de qualquer coisa pelo valor de seus corpos e sua força de trabalho.

A presença das Missões na Amazônia Portuguesa, no séc. XVII e XVIII

 

Texto escrito por Marco Antônio Domingues Teixeira
Professor do Departamento de História da UNIR e do Mestrado Profissional e Interdisciplinar em Direitos Humanos e Desenvolvimento da Justiça.