Polícia

Três sem-terras são mortos e quatro presos em conflito agrário com a Força Nacional em Rondônia

As mortes e prisões foram durante ação policial em área de conflito agrário num distrito de Porto Velho (RO).

Por Marcelo Winter - Rondônia Já

sexta-feira, 13/08/2021 - 23:05 • Atualizado 15/08/2021 - 04:25
Três sem-terras são mortos e quatro presos em conflito agrário com a Força Nacional em Rondônia
Fazenda Santa Carmem em Nova Mutum RO - Foto: Divulgação

Três sem-terras do movimento Liga dos Camponeses Pobres foram mortos em tiroteio com a Força Nacional e policiais militares do Bope de Rondônia na tarde de sexta-feira (13) e outros quatro foram presos durante conflito na fundiária da fazenda Santa Carmem, no distrito de Nova Mutum, que pertence à Porto Velho. Armas e munições também foram apreendidas.

A propriedade onde houve o conflito pertence ao empresário Ricardo Leite, o Rico, dono do Centro Universitário UniNorte, um dos maiores da região.

As informações preliminares são de que os policiais, durante operação na região, entraram em confronto com os sem-terra, que revidaram com tiros a presença policial na região. Durante o tiroteio, três sem-terra teriam morrido na hora. Há uma informação extra-oficial de que um quarto sem-terra morreu posteriormente ao tiroteio, mas, ainda não foi confirmada oficialmente.

Área de conflito agrário

A Fazenda Santa Carmem fica ao lado do acampamento Thiago dos Santos, da Liga dos Camponeses Pobres e já foi alvo de ataque anterior do grupo sem-terra. O acampamento da LCP fica em uma invasão da Fazenda do latifundiário Galo Velho que, segundo a Comissão Pastoral da Terra, é conhecido no meio agrário por incentivar invasões das próprias terras para depois pedir altas somas de verbas indenizatórias ao Incra.

Na área em conflito e imediações, um caseiro, um acampado, um apoiador da LCP, três ex-acampados e dois PMs já morreram em circunstâncias que até hoje ainda não foram plenamente esclarecidas, segundo informações da CPT/RO.

Força Nacional – Foto: Divulgação

Força Nacional em RO

A Força Nacional está em Rondônia desde 16 junho deste ano, após um pedido do Governador Coronel Marcos Rocha (sem partido) ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O pedido foi feito para o uso da Força Nacional nos conflitos agrários. Segundo o Governo de Rondônia, existem 69 áreas invadidas no estado.

Até 5 de agosto, segundo a Secretaria de Segurança Pública, a Força Nacional havia feito em 40 dias de atuação cerca de 400 abordagens à veículos, abordagem de 825 pessoas, 7 apreensões de armas de fogo, 5 prisões e 10 apoios à fiscalizações ambientais.

Desde o início das operações da Força Nacional em Rondônia, temia-se um conflito agrário de grandes proporções com várias mortes. Esta preocupação vinha tanto dos movimentos sociais, como da Comissão Pastoral da Terra.

Com estas três mortes de uma vez só, parte deste temor está sendo confirmado.

Sec. de Segurança de Rondônia, Hélio Cysneiros Pachá – Foto: Divulgação

O Secretário e o Massacre de Corumbiara

O secretário de Segurança Pública de Rondônia, Hélio Pachá, em 09 de agosto de 1995, era um dos oficiais comandantes do pelotão da PM responsável pelo Massacre de Corumbiara, na então Fazenda Santa Elina, no município de Corumbiara (RO).

Segundo relatos dos sobreviventes, cerca de 600 camponeses haviam se mobilizado para tomar a Fazenda Santa Elina (dividida em 03 propriedades posteriormente). Na madrugada do dia 9, por volta das três horas, pistoleiros armados, recrutados nas fazendas da região, além de soldados da Polícia Militar com os rostos cobertos, iniciaram os ataques ao acampamento.

O número oficial de mortos no massacre é de 16 pessoas e há sete desaparecidos. Os camponeses sobreviventes relatam que o número de mortos pode ter passado de 100 pois, segundo eles, muitos mais teriam sido mortos por policiais e jagunços, e enterrados sumariamente.

Depois de horas de tiroteio, os camponeses não tinham mais munições para suas espingardas. O Comando de Operações Especiais, comandado na época pelo tenente José Hélio Cysneiros Pachá, jogou bombas de gás lacrimogênio e acendeu holofotes contra as famílias. A chacina ocorreu durante o governo estadual de Valdir Raupp (PMDB), que foi posteriormente eleito Senador por Rondônia.

Segundo relatos dos sobreviventes no inquérito, mulheres teriam sido usadas como escudo humano pelos policiais e pelos jagunços de um fazendeiro. A pequenina Vanessa, de apenas seis anos, teve o corpo trespassado por uma bala “perdida”, quando corria junto com sua família. Cinquenta e cinco sem-terras ficaram gravemente feridos. Os laudos tanatoscópicos provaram execuções sumárias. O bispo de Guajará Mirim, dom Geraldo Verdier, recolheu amostras de ossos calcinados em fogueiras do acampamento e enviou a Faculté de Médicine Paris-Oeste, que confirmou a cremação de corpos humanos no acampamento da fazenda.

No entanto, apenas um capitão da PM e 03 soldados foram condenados. Hélio Pachá, um dos comandantes do massacre, conseguiu, juntamente com outros oficiais envolvidos, ser absolvido, a pedido do Ministério Público, na época do julgamento. Ele e os outros oficiais ainda receberam promoções, como um “prêmio” pela participação no maior massacre de Sem Terras de Rondônia e um dos maiores do país.