Política

A memória curta do brasileiro e a importância do resgate da História

Pesquisa Datafolha, de 2010, registrou que o Presidente Lula encerrou seu mandato com a avaliação mais alta já alcançada por um presidente: 83% ótima e 4% péssimo.

Liebe Schmidt

segunda-feira, 24/05/2021 - 06:30 • Atualizado 18:48
A memória curta do brasileiro e a importância do resgate da História
Presidente Lula - Foto: El País

A pesquisa da Datafolha, de 20 de dezembro de 2010, feita no encerramento do último mandato do ex-presidente Lula, é bastante reveladora. Ela mostra a importância de manter a História viva, para que os brasileiros reconheçam os acertos e os erros do passado e do presente. Leia, na íntegra.

OPINIÃO PÚBLICA – 20/12/2010

O presidente Lula encerrou seu mandato na Presidência da República no auge de sua popularidade. Após sete anos e 11 meses de governo, 83% dos brasileiros adultos avaliaram sua gestão como ótima ou boa. Com esse resultado, repetiu a marca de outubro, a mais alta já alcançada por um presidente na série histórica do Datafolha. A fatia dos que viram seu governo como regular foi de 13%, enquanto 4% consideraram-no ruim ou péssimo.

No primeiro levantamento sobre a administração Lula, concluído no início de abril de 2003, pouco mais de três meses após sua posse, o presidente teve seu governo avaliado como ótimo ou bom por 43% dos brasileiros. Quase a mesma fatia (40%) considerou o governo iniciante regular, e outros 10% o viram como ruim ou péssimo.

Ainda durante o primeiro mandato, em 2005, o petista enfrentou a pior avaliação de seu governo. Em dezembro daquele ano, sofrendo as consequências do “escândalo do mensalão”, que envolveu a administração federal e parlamentares da base aliada em um esquema de compra de apoio político, a gestão de Lula era avaliada como boa ou ótima por 28%, ante 29% dos que a tinham como ruim ou péssima. O índice dos que consideravam o governo regular atingia 41%. A recuperação veio ao longo de 2006, quando Lula disputou e venceu a reeleição.

Em dezembro daquele ano, o nível dos que consideravam seu governo ótimo ou bom (52%) já superava, com folga, o dos que o avaliavam como ruim ou péssimo (14%). No ano seguinte, o patamar de ótimo e bom atribuído ao governo do petista se manteve estável, entre 48% e 50%. A arrancada rumo ao recorde teve início em 2008: em março daquele ano, 55% avaliavam sua gestão como ótima ou boa; em novembro, já eram 70% os que tinham a mesma opinião; em 2009, ano da crise econômica, essa avaliação variou entre 65% (março) e 72% (dezembro); em maio de 2010 atingiu 76%; e, em outubro, rompeu a casa dos 80% (81% no dia 15, 83% no dia 26).

Entre os brasileiros que estudaram até o ensino fundamental, a popularidade de Lula chegou a 86%, mas caiu a 74% entre a população que têm nível superior de ensino. Entre as regiões do país, o petista atingiu a maior popularidade no Nordeste (88%) e Norte e Centro-Oeste (87%). No Sul, o índice foi de 77% e ficou em 79% no Sudeste.

No levantamento do Datafolha, de 20.12.2010, o petista atingiu ainda outro recorde: a nota atribuída a sua gestão alcançou 8,3, a maior desde que assumiu a presidência. Em outubro, foi de 8,2.

Essa popularidade recorde permitiu ao petista concluir seu mandato acima do que os brasileiros esperavam quando ele tomou posse. Em dezembro de 2002, 76% acreditavam que Lula faria um governo ótimo ou bom, ante os 83% que fizeram a mesma avaliação na última pesquisa, com o mandato concluído.

Na série histórica do Datafolha, o único presidente a concluir seu governo com uma aprovação acima do previsto foi Itamar Franco. A expectativa quanto à gestão do mineiro, porém, era bem mais baixa: 18% acreditava que ele faria um ótimo ou bom governo em setembro de 1992, quando assumiu após o impeachment de Fernando Collor de Mello. Em dezembro de 2004, ao deixar a presidência, 41% avaliaram o governo Itamar como ótimo ou bom.

No caso de Collor, o primeiro a ter a expectativa de governo medida pelo Datafolha, 71% acreditavam que ele faria um governo ótimo ou bom. Apenas 9% tinham a mesma opinião após a conclusão de seu breve mandato.

Quando Fernando Henrique tomou posse, em 1995, 70% esperavam que ele fizesse um governo bom ou ótimo. Ao encerrar seu primeiro mandato, 35% dos entrevistados disseram que ele havia feito um governo ótimo ou bom. A expectativa para o segundo mandato tucano era menor: 41% acreditavam num governo ótimo ou bom. Quatro anos depois, ao encerrar sua passagem pela presidência, 26% avaliaram sua gestão como ótimo ou boa.

Petista entregará país melhor do que quando assumiu

O país que Lula entregará a sua sucessora na Presidência da República, Dilma Rousseff, estará melhor do que quando ele assumiu, há oito anos atrás. Essa foi a opinião de 84% dos brasileiros quando questionados se o petista deixaria um país igual, melhor ou pior do que era antes de se tornar presidente. Outros 12% acreditaram que ele entregou a direção do Brasil em situação igual há oito anos atrás, enquanto 2% disseram que o país piorou no governo do petista.

Essa avaliação foi mais baixa no Rio Grande do Sul, onde 78% dos entrevistados acharam que o país ficou melhor do que antes, e em São Paulo, Estado no qual 79% tiveram a mesma opinião. Em Pernambuco, por outro lado, 90% acreditaram que o Brasil melhorou nos últimos oito anos, índice que chegou a 91% no Ceará.

Avaliação do governo Fernando Henrique Cardoso feita pelo Datafolha ao término de seu governo apontava um cenário mais dividido: 35% disseram acreditar que o tucano deixava um país melhor do que havia assumido oito anos antes, enquanto 34% diziam o contrário, que o Brasil havia piorado nesse intervalo. A fatia dos que avaliavam a situação nacional como igual ao que era antes do governo tucano, era de 28%.

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Quando perguntados sobre a área de melhor desempenho do governo Lula, sem que nenhum assunto lhes fosse apresentado, como na questão anterior, 19% disse ser a atuação nas questões relacionadas à fome e à miséria. O desempenho na economia foi o segundo mais citado (13%), seguido pelo emprego (10%). O índice dos que não souberam responder espontaneamente à questão foi de 11%. Quanto ao governo Fernando Henrique, diante da mesma questão, em 2002, 19% mencionou a saúde como a área de melhor desempenho, seguida pela educação (10%) e economia (9%). A taxa dos que não souberam responder atingiu 40%.

No início de abril de 2003, três meses após o início do mandato de Lula e ainda sob o impacto do lançamento do Programa Fome Zero, o combate à fome e à miséria era apontada como a área de melhor desempenho do governo, com 38% das citações. O desempenho na área econômica, nessa época, era mencionado por 3%, e o combate ao desemprego, por 2%

O Datafolha também pediu aos brasileiros que apontassem, espontaneamente, sem o auxílio de uma lista de assuntos, as áreas de pior desempenho do governo Lula. Liderou essa lista negativa a saúde (23%), seguida pela segurança pública (19%), educação (7%) e corrupção (6%). Quase um quinto (19%) não soube responder. Em 2002, a mesma questão foi apresentada sobre o governo FHC. Segundo os brasileiros, a área de pior desempenho no governo tucano foi o emprego (19%), seguido pela segurança pública (10%). A fatia dos que não souberam responder foi de 24%, naquela época.

Em 2003, a saúde era apontada por 4% como a área de pior desempenho do governo, atrás do combate ao desemprego (13%) e violência (12%). Em julho de 2005, era o combate ao desemprego que liderava, com 23%, e a saúde já aparecia a seguir, com 16%.

Trabalhadores foram os mais beneficiados por governo Lula

Os trabalhadores brasileiros formaram o segmento mais beneficiado pelo governo Lula, de acordo com pesquisa Datafolha, que traçou um balanço da gestão do petista. A fatia dos brasileiros que indicaram os trabalhadores, de maneira geral, como os mais beneficiados pela administração de Lula foi de 33%. Os políticos e os bancos apareceram, a seguir, na lista dos setores mais beneficiados – foram apontados, cada um deles, por 13%. Para 9%, a indústria foi o setor mais beneficiado durante os últimos oito anos, enquanto outros 7% apontaram a agricultura.

Durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, os políticos (33%) e os bancos (29%) foram os setores mais beneficiados, segundo avaliação feita pelos brasileiros em pesquisa Datafolha de dezembro de 2002. Os trabalhadores eram vistos como os principais beneficiários da gestão tucana por 5%, fatia similar à apontada para indústria (7%), agricultura (7%) e comércio (6%).

A percepção de que os trabalhadores foram os mais beneficiados durante o governo Lula, foi inédita. Em pesquisa feita seis meses após a posse do petista, em julho de 2003, apenas 9%  apontavam os trabalhadores como os principais beneficiados. Em primeiro lugar, à época, apareciam os políticos (27%), seguido por bancos (17%) e agricultura (17%). Em julho de 2005, o índice dos que viam os trabalhadores como principais beneficiado pelo governo Lula era ainda menor: 5%. Os políticos apareciam, novamente, em primeiro, com 29%, seguidos por bancos (24%), agricultura (11%) e indústria (9%).

No grupo de brasileiros que tem ensino superior, foi maior a percepção de que os bancos (21%) e políticos (20%) foram os mais beneficiados no último mandato de Lula.

Brasileiro quer ver Lula no governo Dilma

Para 41% dos brasileiros, Lula deveria deixar o cargo de presidente, mas não o governo federal. A participação do presidente no governo de sua ex-ministra Dilma Rousseff foi a opção mais apontada, quando os entrevistados foram questionados sobre o que Lula deveria fazer após o final de seu mandato. Outros 24% defenderam que ele continuasse atuando politicamente no Brasil, mas sem ter um cargo na gestão Dilma Rousseff. Um a cada cinco brasileiros (20%) afirmaram que gostariam de ver Lula aposentado e de volta a São Bernardo do Campo. A fatia dos que gostariam que o petista assumisse um cargo em algum órgão internacional, como a ONU, foi de 11%.

O desejo de ver Lula no governo Dilma foi maior entre os brasileiros adultos com mais de 16 anos que completaram o ensino fundamental (47%) e de metade disso (23%) entre aqueles que têm ensino superior completo. Também foi mais baixa no grupo que tem renda mensal familiar de cinco a dez salários mínimos (29%) e no grupo que tem renda superior a isso (26%). Entre os mais escolarizados e ricos, ficou acima da média o desejo de ver o petista aposentado (28% e 32%, respectivamente).

Brasil está mais importante no mundo; e brasileiro, mais orgulhoso do país

Ao fim de dois mandatos do presidente Lula, três de cada quatro brasileiros (76%) consideraram o Brasil um lugar bom ou ótimo para viver. Esse patamar foi superior ao verificado pelo Datafolha ao final do governo Fernando Henrique Cardoso, quando dois terços (66%) avaliaram o país como bom ou ótimo para viver. O resultado, porém, mostrou uma piora no orgulho do brasileiro na comparação com julho de 2005, quando 80% consideravam o Brasil ótimo ou bom, o maior nível da série histórica do Datafolha, que teve início em março de 2000. Nesse ano, 64% diziam ter orgulho de viver no país. No ano seguinte, em 2001, o índice caiu para seu patamar mais baixo: 60%.

No levantamento de 20 de dezembro de 2010, o índice dos que consideraram o país regular atingiu 21%, ante 26% em dezembro de 2002. Para 3%, o Brasil foi um lugar ruim ou péssimo para viver, praticamente metade dos que fizeram essa avaliação em 2002 (7%).

Na faixa etária mais jovem, coberta pela pesquisa, que foi de 16 a 24 anos, a taxa dos que consideraram o país ótimo ou bom para viver foi menor (66%) do que entre os mais velhos, com 60 anos ou mais (85%). Entre os Estados brasileiros, os moradores do Rio de Janeiro também tiveram a menor taxa de satisfação com o país (67%), enquanto os mineiros tiveram a maior (81%).

Entre 2002 e 2010 também cresceu, de 84% para 89%, a porcentagem de brasileiros que tinham mais orgulho do que vergonha de viver no Brasil. Foi o índice mais alto da série histórica do Datafolha, que começou em 2000. Nesse primeiro levantamento, 87% disse ter mais orgulho do que vergonha de ser brasileiro. Na pesquisa seguinte, que foi a campo em junho de 2001, o índice atingiu seu patamar mais baixo, 78%. Quase um quinto (19%) dos brasileiros com mais de 16 anos tinham, em junho de 2001, mais vergonha do que orgulho de ser brasileiro. Nesta última pesquisa, esse grupo somou 9%, o mais baixo em uma década.”

Fonte: Datafolha

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