Política

Senador Marcos Rogério: O advogado do Capitão

Após conseguir a convocação dos governadores para a CPI da Pandemia, o jovem senador agora tenta convocar o pastor Silas Malafaia para tumultuar os trabalhos.

Por Marcelo Winter - Rondônia Já

quinta-feira, 27/05/2021 - 07:00 • Atualizado 28/05/2021 - 14:15
Senador Marcos Rogério: O advogado do Capitão
Marcos Rogério e Jair Bolsonaro - Foto: Rondoniaja.com

O senador Marcos Rogério (DEM-RO) tem recebido os holofotes da mídia nacional durante a CPI da Covid. Não exatamente por estar do lado das famílias de centenas de milhares de pessoas que morreram pela doença no Brasil. Mas, por estar bem ao lado dos interesses da presidência da República, da qual é ferrenho defensor.

Na CPI, o Governo Federal é investigado pela suspeita de omissão, diante da grave crise da Covid que ceifou 450 mil vidas. A Comissão também não descartou a intenção de testar no Brasil a “imunidade de rebanho”, uma tática condenada pela Organização Mundial de Saúde e que poderia ser caracterizada como criminosa, se for provada.

Desde o princípio, antes mesmo do começo dos trabalhos, Marcos Rogério se empenhou para tentar tirar o senador Renan Calheiros (MDB-AL) da relatoria da Comissão, uma vez que o parlamentar alagoano é ferrenho opositor de Bolsonaro. O senador rondoniense, junto com outro governista, entrou com um pedido neste sentido no STF, mas, o ministro Ricardo Lewandowski negou.

Como a primeira tentativa falhou, o senador resolveu partir para uma área que conhece bem, a advocacia. Formado em direito, Marcos Rogério começou a carreira como jornalista, de onde vem a retórica afiada. No princípio, era locutor de uma rádio, em Ji-Paraná. Posteriormente, se tornou, além de radialista, também repórter da Rede Amazônica Rondônia (afiliada TV Globo). Chamava atenção o talento que permitiu emplacar reportagens à nível nacional. Depois saiu e foi coordenar o jornalismo do grupo de rádio e TV do senador Acir Gurgacz (PDT-RO).

Acir foi o mentor e padrinho político de Marcos Rogério. Através do apoio do empresário e senador, Marcos foi eleito vereador, em 2009 e dois anos depois, se tornou deputado federal por dois mandatos. Na Câmara, conseguiu o primeiro destaque nacional ao ser relator do processo de cassação do deputado Eduardo Cunha. A exposição massiva na grande mídia lhe rendeu o atual mandato de senador, desta vez, já desvinculado de seu padrinho político do PDT. Como senador, foi eleito pelo DEM, uma sigla conservadora, mais condizente com o perfil de um político ligado à bancada evangélica e acostumado à fazer grupos de oração no Congresso.

Sorteado para compor a ala governista da CPI da Covid,  Marcos Rogério resolveu vestir o manto e defender com fervor quase religioso o presidente Messias Bolsonaro. Como uma espécie de advogado do capitão, o senador se notabilizou pelas inúmeras tentativas de obstruir os trabalhos da CPI numa tentativa de desmoralizar as provas e evidências apresentadas e para isto, se valeu de quase tudo, o que lhe rendeu pesadas críticas de influencers digitais, como Felipe Neto e jornalistas famosos, a exemplo de Reinaldo Azevedo.

 

Tweet de Felipe Neto sobre Marcos Rogério – Fonte: Twitter

As polêmicas mais recentes

Em 20 de maio, o senador Marcos Rogério mostrou vídeos com declarações antigas de governadores de São Paulo, Piauí e Maranhão, dizendo que eles sugeriram a distribuição de cloroquina nos hospitais públicos do país. Só que os vídeos estavam fora de contexto. Eles foram gravados no início da pandemia, em abril de 2020 e tratavam da utilização da droga em pacientes hospitalizados, antes, portanto, do posicionamento de maior do mesmo ano da OMS, alertando sobre o uso do remédio. Uma fake news, algo incompreensível para quem um dia já foi um jornalista talentoso. Marcos Rogério alega que os vídeos se referem aos protocolos de cloroquina, ativos ainda nos estados do Amapá e Alagoas.

A exibição dos vídeos provocou reações. Os governadores afirmaram se tratar de mentira e manipulação. Já o DEM, partido o qual pertence Marcos Rogério publicou no Twitter a seguinte nota:

As posições do senador Marcos Rogério na CPI refletem seu pensamento como parlamentar, e não como Partido”. Desde o início da pandemia, o compromisso do Democratas com a ciência e a preservação da vida se faz evidente em nossas gestões pelo Brasil.

Senador Marcos Rogério – Foto: Agência Senado

A discussão que levou à convocação de Marcos Rocha

Na terça-feira (25), Marcos Rogério interrompeu o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM) durante o interrogatório da secretária do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, a “Capitã Cloroquina”. O senador manauara falava sobre o aplicativo TrateCov, plataforma do MS que recomendava o uso de antibióticos, cloroquina, ivermectina e outros remédios para náusea e diarreia ou para sintomas de uma ressaca, como fadiga e dor de cabeça, inclusive para bebês.

Aziz, disse que o governo usou Manaus de “cobaia” para testar o aplicativo e repreendeu a secretária Mayra, quando Marcos Rogério questionou se Aziz teria a mesma “animosidade” para “enfrentar” o governador do Amazonas, quando este eventualmente fosse depor à CPI. “Acha mesmo que estou preocupado com o governador do Amazonas?”, respondeu o presidente da comissão, que voltou a dizer que os senadores irão votar os requerimentos de convocação de autoridades estaduais, como cobrado pelos governistas da CPI e assim o fez.

O governador de Rondônia, Marcos Rocha (PSL) e mais 08 governadores foram convocados para depor na CPI da Covid na quarta-feira (26).  No Twitter, Marcos Rogério revelou que o objetivo final dele foi alcançado.

Tweet de Marcos Rogério sobre convocação dos governadores – Fonte: Twitter

As possíveis pretensões do senador

Com a convocação dos governadores, Marcos Rogério conseguiu aquilo que os parlamentares governistas sonhavam: a tentativa de desviar a atenção da população sobre os vários desmandos do Governo de Jair Bolsonaro. O presidente é considerado no exterior um político de extrema-direita, ligado à grupos supremacistas e coleciona pedidos de impeachment e processos que classificam a gestão dele na pandemia como “genocídio”.

Desde o início da CPI da Covid, a popularidade de Bolsonaro vem despencando à medida em que os corpos se acumulam e as mentiras e farsas se mostram. Na pesquisa da Datafolha, publicada em 13 de maio, a aprovação ao governo Jair Bolsonaro (sem partido) caiu de 30% em março deste ano para 24% em maio, índice mais baixo registrado desde o início do seu mandato. No mesmo período, a reprovação oscilou de 44% para 45%, dentro da margem de erro.

Ou seja, a CPI da Covid está funcionando como uma espécie de sangria às pretensões de Bolsonaro se reeleger. Algo cada vez mais distante, à medida em que revelações sobre a gestão dele à frente da Covid-19 são reveladas.  Dois exemplos clássicos são as 11 vezes que Bolsonaro recusou ofertas de laboratórios para compra de vacinas e as 15 mentiras do ex-Ministro Pazuello, pontuadas por Renan Calheiros. No dia em que Pazuello prestou depoimento, Marcos Rogério tentou à todo custo desacreditar os integrantes da CPI para defender com unhas e dentes o presidente Messias Bolsonaro.

Só que as pretensões do senador rondoniense não se restringem à mera advocacia política de Jair. O parlamentar sonha mais alto. Assim como os holofotes da imprensa nacional garantiram à ele o acesso ao Senado, já é comentado nos círculos políticos de Rondônia que o próximo cargo que Marcos Rogério almeja é o de governador, com apoio irrestrito de Bolsonaro. Portanto, a convocação do futuro rival, o também bolsonarista governador Coronel Marcos Rocha, soa como “forçar a partida”, uma  jogada de xadrez em que o jogador induz o adversário ao erro para, mais adiante, dar o “xeque-mate”.

Uma das evidências de campanha antecipada está num outro tweet de Marcos Rogério postado na quarta-feira (26):

Tweet de Marcos Rogério sobre Malafaia – Fonte: Twitter

Trazer Silas Malafaia, além do objetivo de tumultuar a Comissão e desviar a atenção dos desmandos de Bolsonaro estampados nas apurações da CPI também tem a intenção de acenar aos eleitores rondonienses que o senador, além de bolsonarista de carteirinha, também é evangélico fervoroso e fã de Malafaia. Lembrando que Rondônia é o estado com maior percentual (27,2%) de evangélicos do país.

A dúvida é saber se todas estas jogadas vão sobreviver ao furacão Lula. O ex-presidente desponta nas pesquisas como franco favorito. Na mais recente pesquisa Datafolha, o petista lidera a corrida eleitoral de 2022 e marca 55% contra 32% de Bolsonaro no segundo turno. A desmoralização sistemática de Bolsonaro na CPI e a ascenção de Lula podem alterar as peças no tabuleiro do xadrez político rondoniense de uma forma que Marcos Rogério ainda não percebeu. A pergunta que fica é: vale a pena apostar todas as fichas em apenas um número? O tempo dirá.