Política

O que muda na Amazônia com a saída de Salles do Ministério do Meio Ambiente

O novo ministro do Meio Ambiente é defensor do agronegócio e tem familiares disputando um pedaço de terra indígena.

Por Marcelo Winter - Rondônia Já

quinta-feira, 24/06/2021 - 01:11 • Atualizado 23:47
O que muda na Amazônia com a saída de Salles do Ministério do Meio Ambiente
Ministro do Meio Ambiente Joaquim Álvaro Pereira Leite - Foto: Divulgação

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, pediu demissão na tarde de quarta-feira (23) ao presidente Jair Bolsonaro. O ato de exoneração foi publicado em edição extra do Diário Oficial da União (DOU) e foi amplamente noticiado pela mídia nacional.

Alvo de duas investigações no Supremo Tribunal Federal (STF), Salles estava sob pressão e alegou motivos familiares para deixar o cargo, apesar do respaldo do Palácio do Planalto.

Na Operação Akuanduba, deflagrada em maio, ele foi alvo de mandados de busca e apreensão e teve seus sigilos bancários e fiscal quebrados. Esse processo tem como relator o ministro Alexandre de Moraes.

Mais de dez servidores do Ministério do Meio Ambiente e do Ibama foram afastados pela operação, entre eles o presidente da autarquia, Eduardo Bim.

A suspeita da Polícia Federal é que Salles estaria envolvido em venda ilegal de madeira ao exterior, o que se for comprovado, pode levar o agora ex-ministro à prisão.

Ricardo Salles – Foto: Montagem

O novo Ministro

O atual Secretário da Amazônia e Serviços Ambientais da pasta, Joaquim Álvaro Pereira Leite, foi nomeado em seu lugar.

Pereira Leite é formado em administração de empresa e foi conselheiro da Sociedade Rural Brasileira (SRB) por 23 anos, entidade que defende os interesses de empresas do agronegócio brasileiro.

Antes de ser indicado para ser o titular do ministério, ocupava, na pasta, o cargo de secretário da Amazônia e Serviços Ambientais, desde abril de 2020.

Ele entrou na equipe da gestão de Salles no Meio Ambiente como diretor do Departamento Florestal do ministério, em julho de 2019.

A ligação do ex-ministro com Pereira Leite é mais antiga. Salles, antes de ser ministro, atuou como advogado da SRB em várias causas referentes ao agronegócio.

Consta no site da SRB que o grupo apoia a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), conhecida como bancada ruralista. Além disso, a entidade já se posicionou publicamente em apoio a Salles.

No dia 22 de abril de 2020, quando houve a divulgação, a nível nacional. do vídeo de uma reunião do alto escalão em que Salles diz ao presidente Jair Bolsonaro que ele deveria aproveitar  a cobertura jornalística da Covid-19 para “passar a boiada” na área ambiental. Em seguida, a Sociedade Rural Brasileira publicou uma nota de apoio à  Salles.

Joaquim Álvaro Pereira Leite e Jair Bolsonaro – Foto: Twitter

Expectativa versus realidade

Entre os servidores federais lotados no Ministério do Meio Ambiente a expectativa é que algo melhore com a saída de Salles, mas, ninguém acredita em grandes mudanças.

Quando Ricardo Salles assumiu o MMA, o ICMBio tinha 11 coordenações regionais com autonomia para fiscalizar as 334 Unidades Federais de Conservação sob sua responsabilidade.

Uma das primeiras medidas do hoje ex-ministro foi extinguir as 11 coordenações autônomas e colocar no lugar apenas 5 gerências regionais, sem nenhuma autonomia, com hierarquias rígidas e servis às vontades do Governo Federal.

Os recursos para o combate aos crimes ambientais também minguaram. Um esforço grande, por parte do MMA, para desaparelhar a estrutura que antes incomodava tanto os invasores de terras públicas, os grileiros, os madeireiros que extraíam madeira ilegal e toda a classe de criminosos ambientais, que antes, pensavam bem antes de cometer qualquer infração, mas, agora se sentem à vontade, como se estivessem em casa.

Hoje, a base avançada de Porto Velho, que cuida de 40 Unidades de Conservação em Rondônia, Acre e sul do Amazonas está sem previsão de recursos para o segundo semestre.

E se depender do novo ministro, é difícil prever uma mudança positiva.

Além de defensor ferrenho do agronegócio, o novo ministro do Meio Ambiente, Joaquim Álvaro Pereira Leite, faz parte de uma família de fazendeiros que disputa um pedaço de terra indígena, localizada nos municípios de São Paulo e Osasco. As informações são da Folha de São Paulo.

Um documento da Fundação Nacional do Índio (Funai) mostra que a família do ministro mandou destruir a casa de uma família indígena para tentar expulsá-la do território. O processo ocorre desde 1980, mas está paralisado na Justiça.

A jornalista Andreia Sadi, do grupo Globo, lembrou algo importante também. A demissão de Salles foi no mesmo dia em que a CPI da Covid divulgou que o Governo Bolsonaro, apesar de avisado antecipadamente, mesmo assim comprou a vacina indiana Covaxin por um preço acima de 1.000% sobre o valor praticado inicialmente pela empresa Bharat Biotech. Uma tática muito conhecida entre políticos que querem enganar a população e a imprensa em geral, a chamada “cortina de fumaça”, para que não dêem atenção ao principal escândalo do dia.

Ou seja, não há muita coisa para se comemorar.

Tweet de Andreia Sadi – Foto: Twitter

 

Fontes: Folha de São Paulo, Brasil Atual e O Globo