Política

Ex-ministro da Defesa: “Bolsonaro queria jatos sobrevoando STF para estourar vidros”

O ex-ministro da Defesa Raul Jungmann deu entrevista à VEJA confirmando que este foi o motivo da saída dos comandantes militares.

Por Redação Rondônia Já

sábado, 21/08/2021 - 18:12 • Atualizado 22/08/2021 - 22:13
Ex-ministro da Defesa: “Bolsonaro queria jatos sobrevoando STF para estourar vidros”
Presidente Jair Messias Bolsonaro (sem partido) - Foto: Divulgação

O ex-ministro da Defesa e da Segurança Pública Raul Jungmann afirmou, em entrevista à revista Veja publicada na sexta-feira (20), que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) deu ordem para que jatos sobrevoassem o Supremo Tribunal Federal (STF) para quebrar os vidros do prédio.

Segundo a entrevista publicada, Jungmann disse o seguinte:

“Ele chamou um comandante militar e perguntou se os jatos Gripen estavam operacionais. Com a resposta positiva, determinou que sobrevoassem o STF acima da velocidade do som para estourar os vidros do prédio. Bolsonaro mandou fazer isso, tenho um depoimento em relação a isso. Ao confrontá-lo com o absurdo de ações desse tipo, eles foram demitidos.”

As demissões que Jungmann se refere são dos últimos comandantes do Exército Brasileiro (EB), da Marinha do Brasil (MB) e da Força Aérea Brasileira (FAB) que decidiram deixar os cargos por respeito à Constituição Federal.

Os então titulares do Exército, general Edson Pujol; da Marinha, almirante Ilques Barbosa Junior; e da Aeronáutica, brigadeiro Antônio Carlos Moretti Bermudez, deixaram os postos em março deste ano, após se reuniram com o ex-ministro da Defesa general Fernando Azevedo e Silva, que também deixou o cargo.

Ex-ministro da Defesa Raul Jungmann – Foto: Divulgação

Novo comando alinhado

Hoje, o Exército é comandado pelo general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira; a Aeronáutica, pelo brigadeiro Carlos Almeida Baptista Júnior; e a Marinha, pelo almirante Almir Garnier Santos. Já o Ministério da Defesa tem como chefe o general Braga Netto, muito alinhado ao presidente da República.

Já como reflexo desta nova cúpula militar alinhada à Bolsonaro, Jungmann lembrou na entrevista que o desfile de blindados da Marinha, no último dia 10, se tratou de uma ameaça:

“Desfile de tropas e blindados nas cercanias dos poderes só é aceitável em datas comemorativas nacionais. Fora disso, é ameaça real ou simbólica — e algo inaceitável. Simbolicamente, dá sequência à série de atos de constrangimento do presidente da República aos demais poderes.Em termos de balanço, o desfile revelou-se uma ópera-bufa. O efeito foi extremamente negativo e, ainda, ocorreu a derrota do voto impresso.”

Mas, segundo a avaliação do ex-ministro, não há clima, atualmente, para um novo golpe militar:

“As Forças Armadas não estão disponíveis para nenhuma aventura ou golpe. Em 1964, existia apoio de setores da imprensa, da Igreja, do empresariado, fora uma situação internacional que favorecia um golpe de Estado. Hoje, não há ambiente para um golpe de Estado. Não tem nenhuma força política a favor disso, muito pelo contrário. Seria um raio em céu azul.”

No entanto, Raul Jungmann lembra que há o risco de se repetir no Brasil o que aconteceu nos EUA pouco antes de Donald Trump entregar o cargo, no episódio da invasão do Capitólio:

“Bolsonaro corteja as polícias e afrouxa o controle das armas. Ele é o único presidente da República que vai a cerimônias de formação de policiais. Quando propõe que o povo se arme, ele quebra o monopólio da violência legal por parte do Estado. É grave. Só o Estado tem a prerrogativa legal para o uso da força. Ele propõe jogar brasileiros contra brasileiros. No limite, isso tem o nome de guerra civil. Vamos ter problemas em 2022, não sei em qual nível. Quando o presidente diz que não teremos eleições se não forem eleições limpas, ele prepara o terreno para que vivamos o que os Estados Unidos passaram na invasão do Capitólio, só que de maneira ampliada.”

Com informações da Revista VEJA